Os mistérios do Monte Fuji

Vista do Festival Fuji Shibazakura, que acontece de abril a maio, em Yamanashi

Vista do Festival Fuji Shibazakura, que acontece de abril a maio, em Yamanashi

Se todo brasileiro deve plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho antes de morrer, o japonês tem uma missão a mais: escalar o Monte Fuji. O ponto mais alto do Japão é considerado um símbolo sagrado para os nipônicos, além de ostentar títulos (verdadeiros ou não) de a montanha mais escalada do mundo, o lugar mais fotografado e com maior concentração de energia. Nos últimos anos, o monte vem registrando aumento do número de visitantes estrangeiros que são atraídos pela aura e beleza. Cada vez mais, o principal ícone físico do Japão é valorizado como uma das principais rotas espirituais do planeta, ao lado de lugares como o caminho de Santiago de Compostela (Espanha) ou o Monte Athos (Grécia). Mas, afinal, por que o Fuji tem tanta importância não apenas para o Japão, mas também para toda humanidade?

Logo do Atari representa o monte Fuji

Logo do Atari representa o monte Fuji

O Fuji deixou sua marca também fora do Japão. O videogame Atari tem como logotipo três faixas que representam o monte japonês. Seu criador, o norteamericano Nolan Bushnell, era fã do Japão e jogador de Go (uma espécie de xadrez japonês do qual atari é o nome de uma jogada de ataque).

Diversas empresas japonesas também fazem referência ao monte, tais como o Fuji Bank e a Fujifilm. Esta última se estabeleceu inicialmente ao pé da montanha em 1934 na cidade de Ashigara. Os vulcões eram considerados seres divinos pelos homens pré-históricos, quando ainda não se sabia produzir o fogo. As lavas vulcânicas vinham das profundezas e traziam o calor e as chamas tão vitais para os primórdios do ser humano. Com o Monte Fuji não foi diferente, ainda mais porque foi formado não apenas por um, mas por três vulcões que se fundem há cerca de 100 mil anos.

Representação do monte Fuji no logo do Fuji Bank

Monte Fuji no logo do Fuji Bank

As lendas da antiguidade logo deram ao monte o poder de unir o profano da terra aos deuses dos céus. Essa trajetória do fogo, desde as profundezas até as alturas, hoje é percorrida por cerca de 300 mil turistas todo ano nos meses de julho e agosto. Claro que nem todos sobem a montanha imbuídos com esse espírito místico. Para alguns, a subida resume-se a uma cansativa caminhada, que é recompensada pela vista do topo.

Mas, para a maioria, a escalada tem um toque sagrado, relacionado com o trajeto do fogo. Uma das atrações aos pés da montanha, o Himatsuri, ou Festival do Fogo, é realizado todo ano no final de agosto. Tochas de até três metros de altura, que queimam nas ruas da cidade de Fujiyoshida, atuam como elemento purificador, simbolizando as lavas vulcânicas. Antes dos festejos, os visitantes podem fazer a escalada, passando por 10 estações de apoio. A superação das barreiras físicas e do cansaço faz da subida uma verdadeira peregrinação. Como toda rota espiritual, a caminhada é uma oportunidade para os viajantes refletirem sobre a própria vida.

Escalar o monte Fuji pode durar de três a seis horas

Escalar o monte Fuji pode durar de três a seis horas

Os trens e estradas chegam somente até o quinto estágio. Mas de lá em diante é só caminhada, que pode durar de três a seis horas dependendo da disposição do escalador e de qual dos quatro caminhos se escolhe (Kawaguchiko, Fujinomiya, Gotemba ou Subashiri). Há também aqueles que fazem a escalada toda a pé, dispensando o trem, o que aumenta a jornada em mais cinco horas em média. No início da escalada, é vendido um cajado de madeira que pode ser marcado em cada uma das paradas.

Ao passar por uma estação, há um encarregado de queimar o bastão com um carimbo aquecido em brasas, em mais uma referência ao fogo. Aos peregrinos, a superação de cada estágio representa o vencimento dos obstáculos da vida, do passado e do presente. Em parte para evitar dormir nas pousadas, em outra para fugir do calor, muitos escolhem percorrer o caminho ascendente à noite, já que um dos principais objetivos é ver o nascer do sol lá do topo, o goraiko.

A recompensa da escalada

A recompensa da escalada

Do alto do monte Fuji

Do alto do monte Fuji

Perto do cume, a passagem por um portal xintoísta delimita a entrada na reta final, ou para os mais místicos, em um espaço sagrado próximo dos céus.

Ao chegar lá em cima, preferencialmente de madrugada, o peregrino tem um tempo para fazer uma última meditação. E, finalmente, a renovação vital, ou, quem sabe, até uma experiência mística pode chegar junto com os primeiros raios do alvorecer. O espetáculo é único.

Como pra baixo todo santo ajuda, o retorno à quinta estação dura, em vez de seis, quatro horas. E quem retorna pelas rotas Subashiri e Gotemba ainda pode experimentar descer a montanha correndo sobre cinzas a partir do sétimo estágio. É uma sensação indescritível. Ao chegar à planície, está completo o trajeto, similar ao caminho do fogo de quando o vulcão estava ativo. Desde o chão até o sol e de volta à terra.

Preservação

Quando o asfalto alcançou mais da metade do caminho até o topo do monte, o turismo explodiu na região. Com o aumento dos visitantes, estimado em cerca de 300 mil por ano, o Fuji enfrenta grave processo de deterioração ambiental.

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O intenso movimento também provocou crescimento do comércio local, responsável pelos inconvenientes da modernidade, tais como o aumento do lixo e todo tipo de dejetos. Atualmente, centenas de voluntários das mais variadas profissões se juntam para catar lixo no caminho.

O governo japonês adotou diversas medidas que melhoraram as condições de preservação nos últimos anos, mas a situação ainda é crítica. Em um pedido de reconhecimento do Monte Fuji como Patrimônio Natural da Humanidade no início de 2007, a Unesco negou o título. Esta é a segunda vez que o órgão internacional não inclui o símbolo japonês na lista de patrimônios mundiais. Na primeira vez, em 1995, a justificativa foi que o local enfrentava problemas de preservação. Fica o alerta para que visitantes e autoridades se mobilizem para manter a integridade do Fujisan.

A princesa da Sakura

Um portal xintoísta (torii), que marca o limite entre um local sagrado e um profano, recebe os visitantes que conseguem chegar ao topo do monte. Ele está lá para delimitar o território do templo dedicado à Sakuya Konohana, considerada a princesa da flor de cerejeira e deusa do Monte Fuji.

Diz a lenda que ela era tão bela quanto a flor, atraindo até a atenção de Ninigi, o deus encarregado de criar o Japão. Mas ela percebeu que sua beleza duraria pouco, assim como as sakura, e, inconformada, rumou ao topo do Fuji para subir aos céus. Por isso, ela também simboliza a efemeridade da vida.

Festival de Fogo

Fujiyoshida é uma das cidades que cercam o Monte Fuji e onde sempre ocorre o Himatsuri, ou Festival do Fogo, nos dias 26 e 27 de agosto. Ao cair da noite do primeiro dia, tochas com cerca de três metros de altura são acesas na rua principal, enquanto uma espécie de réplica do Monte Fuji é carregada pelos habitantes do lugar.

O interior das casas, decorado, é iluminado pelo fogo, cujos locais onde ficam são purificados com terra fresca e sal. O festival também encerra oficialmente a temporada de escaladas ao topo do Fuji.

Superstições

Sorte que vem do Fuji

Sorte que vem do Fuji


Como todo lugar místico, o Monte Fuji tem seu punhado de superstições. Aquele que receber os raios de sol do alvorecer no topo do Monte Fuji terá sorte, ainda mais se for no primeiro dia do ano.

Escalar no ano-novo, entretanto, é uma aventura para poucos alpinistas, pois o cume está coberto de neve em dezembro. Os menos aventureiros podem simplesmente sonhar com o Fuji na noite da virada, o que também é sinônimo de sorte. Só é preciso tomar cuidado com uma coisa para não ter azar. Nunca se deve subir o monte um número par de vezes durante a vida.

As várias vistas do Fuji

Obra de ukiyo-e produzida por  Katsushika Hokusai

Obra de ukiyo-e produzida por Katsushika Hokusai


Há um ditado que diz que “o Monte Fuji parece lindo a distância, mas de perto é um amontoado de pedras”. A vista que se tem de seu cume é maravilhosa, mas o monte em si, naquela parte, é só cascalho.

Por isso, o que mais encanta as pessoas é o cenário que ele ajuda a compor (veja este post sobre as melhores vistas do Monte Fuji) com seu formato simétrico e seu pico nevado. Os diversos ângulos de observação da montanha inspiraram a produção das 36 vistas do Fuji, obra-prima do ukiyo-e de Katsushika Hokusai lançada em 1832.

Três vulcões

Os três vulcões

Os três vulcões

O Fuji que hoje conhecemos é resultado da sobreposição de três vulcões. Há cerca de 100 mil anos, ao pé do Monte Komitake (em vermelho), atividades vulcânicas começaram a dar origem a um aglomerado maior, o Ko-Fuji (em amarelo).

Este, por sua vez, começou a expelir grandes quantidades de lava há 11 mil anos, moldando o formato atual do monte, conhecido como Shin-Fuji (em verde).

Água pura

A quantidade de água que cai sobre o Monte Fuji por ano, na forma de chuva ou neve, chega a 2,5 bilhões de toneladas. Uma grande parte é absorvida pelo solo a cada dia, percorrendo o corpo do monte e desembocando no pé.

Assim surgem fontes de água famosas em todo o Japão por seu gosto e pureza. O Ministério do Meio Ambiente japonês considera as águas das cataratas de Shiraito, aos pés do monte, uma das mais puras do Japão. O Fuji também é a maior fonte de água subterrânea potável do arquipélago.

O Fuji é a maior fonte de água subterrânea potável do Japão

O Fuji é a maior fonte de água subterrânea potável do Japão

Perfeito para morrer

Ao redor do Monte Fuji, está a floresta de Aokigahara, que tem um ar de mistério. Muito procurada pelos suicidas, ela é descrita como “o local perfeito para morrer” pelo Manual Completo do Suicídio, livro de Tsurumi Wataru lançado em 1993. Em 2003, um recorde de 78 corpos foram encontrados. A mata densa que impede a entrada de som e as cavernas que nunca degelam criaram a crença de que o lugar é um purgatório para “almas” sofridas. Alguns suicidas, por outro lado, acham que o local representa um caminho mais curto para os céus.

Vista aérea do Monte Fuji

Vista aérea do Monte Fuji

Aventura no Frio

Escalar fora de temporada é tarefa para poucos mais ousados que querem enfrentar a neve que cobre o topo de setembro a junho.

A temperatura média no cume do Fujisan é de -6,4ºC

A temperatura média no cume do Fujisan é de -6,4ºC

A variação de temperatura entre a parte mais alta e a base chega a 22ºC, e a temperatura média lá em cima é de -6,4ºC. Por isso, a montanha só abre ao grande público nos meses de julho e agosto, em pleno verão japonês.

Sob sol forte, cerca de 300 mil pessoas costumam subir todos os anos os caminhos que levam ao cume. Destes, 30% são estrangeiros.

10 Estações

Quando o asfalto alcançou mais da metade do caminho até o topo, o turismo explodiu na região. E como desde então muita gente sobe a montanha, serviços de apoio foram construídos por todo o trajeto.

As estações são pontos de apoio no percurso

As estações são pontos de apoio no percurso

Quem começa a subida a partir do pé do monte passa por um total de dez estágios, independente do caminho escolhido. Em cada um deles há paradas estratégicas onde se pode comer, usar banheiros, comprar uma bebida em máquinas automáticas, e até tirar um cochilo em pequenas pousadas antes de continuar o caminho. Afinal, são muitas horas até o ponto mais alto.

Parque em volta do Fuji

O monte é cercado pelo Parque Nacional Fuji-Hakone-Izu, um território que alcança quatro províncias: Yamanashi, Shizuoka, Kanagawa e Tokyo. Dentro de seus limites estão os Cinco Lagos do Fuji, formados pela lava de erupções vulcânicas.

Parque Fujikyu Highland

Parque Fujikyu Highland


Estes dão nome à região que abriga, por exemplo, o Fujikyu Highland, um parque de diversão famoso por dar aos visitantes a vista do monte a partir de uma das maiores montanhas-russas do mundo. Há também restaurantes, hotéis e estações de esqui.

*Conteúdo publicado originalmente na edição #119 da revista Made in Japan.

Veja também:

.: Monte Fuji é considerado Patrimônio da Humanidade
.: Monte Fuji ganha sinal 4G
.: As vistas do Monte Fuji