Gaimusho Kenshusei: Experiências de viagem pelo Japão, André Kondo

O escritor André Kondo, autor do livro Turma da Mônica Lendas Japonesas, esteve no Japão pelo programa de intercâmbio Gaimusho Kenshusei, promovido pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão e contou um pouco dessa experiência incrível que teve na viagem.

Leia, a seguir, o texto compartilhado por Kondo à Made in Japan.

Andre Kondo Gaimusho Kenshusei

André Kondo em Shibuya

O Meu Japão

Por André Kondo

Há muito tempo eu desejava descobrir o que era o Japão. O que era esse sentimento de se ter no sangue a herança de um povo milenar, de ter em mim os olhos amendoados de minha mãe, a voz de meu pai, as vidas de meus avós.

A primeira vez em que tentei isso, foi no ano de 2000. Percorri as quatro maiores ilhas do Japão, vivenciando ao máximo as paisagens que sempre estiveram em meus sonhos. Lá estava, diante de meus olhos, a Hokkaido de meu pai, o frio que ele deve ter sentido em sua pele, a esperança mantendo-o aquecido. Lá estava o mar que banhava a ilha de Kyushu, o mar que lavava o olhar de minha mãe ainda criança. E eu fiquei, então, buscando nesses retalhos de Japão, um que fosse, para mim, um Japão por inteiro. Apesar de tudo, retornei ao Brasil, ainda incompleto.

No final daquele mesmo ano, retornei ao Japão, dessa vez, para trabalhar. Foi então que comecei a encontrar outros pedaços. Retalhos que não faziam parte das paisagens de fora, mas das paisagens de dentro. Encontrei, nas longas horas de trabalho, o suor de meus pais, de meus avós, dos imigrantes japoneses, dos japoneses que nunca saíram de suas terras também. Então, ao acordar antes do Sol e afundar meus pés na neve (vi os passos de meu pai em minhas pegadas) erguia a cabeça e dizia, com orgulho: sou parte de algo maior, sou um pedaço do esforço que a vida nos exige para termos o direito de realizar os nossos sonhos. Na fábrica, eu ajudava a produzir o alimento que traria vida às pessoas. Tinha a responsabilidade de exercer minha função da melhor maneira possível, para que todo o trabalho conjunto não fosse em vão. Cada pessoa era importante em cada etapa, no fim, esse era o Japão que valorizava as partes de um todo.

Após um ano e meio, voei para a Austrália e depois percorri cinquenta países em meu caminho de volta ao Brasil. Por mais paisagens que eu tenha visto, por mais povos que eu tenha conhecido, o Japão ainda me chamava. Minha viagem ainda não estava completa.

Escrevi vários livros inspirados na cultura japonesa, e a cada linha que eu traçava, pensava que ainda havia outros caminhos para se chegar ao meu Japão. Foi então que surgiu a oportunidade para completar a minha jornada. Após ter sido selecionado pelo Consulado Geral do Japão em São Paulo, para receber a prestigiosa bolsa do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão, Gaimusho Kenshusei, pude ir ao Japão como convidado oficial do Governo.

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Isso significava que muitas portas antes inacessíveis estariam abertas nesta minha terceira viagem. Mas o mais importante era que, pela primeira vez, eu não estaria sozinho nessa busca. Havia outras pessoas como eu, em busca de uma maior compreensão sobre o Japão (afinal, este era um dos objetivos do programa que nos levaria lá). Descendentes de japoneses de várias partes do Brasil e da América Latina e do Caribe: Fernanda Gushken e eu (SP), Alessandra Koga (PR), Erick Takeda (RS), Karla Izumi (GO) e Masaki Ninomiya (RJ), Alfredo Mory (Cuba), Amira Katsuda (Bolívia), Estefania Matías (República Dominicana), Carlos Arasaki (Argentina), Kaori Yonekura (Venezuela), Mitsuko Iitomi (Chile) e Rodrigo Cabello (Paraguai).

Encontro com autoridades do Japão

A programação oficial contava com reuniões com altas autoridades do Japão, em ocasiões em que tivemos a oportunidade de conhecer aspectos políticos e diplomáticos do Governo Japonês, no local onde tais políticas eram arquitetadas. Também, em um intenso cronograma, visitamos museus, experimentamos a culinária de uma forma não apenas gastronômica, mas tentando entender os sabores que permeavam a sociedade japonesa. Fomos recebidos pelo Comitê Olímpico para a realização dos Jogos Olímpicos de Tóquio (que infelizmente foram adiados por conta da pandemia) e por membros nikkeis em Okinawa. Encontros…

Mas, acima de tudo, fizemos isso juntos, como um grupo que tinha dentro de si os mesmos anseios. Éramos pedaços de um todo. De fato, mesmo que o mapa nos colocasse distantes uns dos outros, naquele instante, tínhamos a mesma geografia afetiva: o Japão.

Em vários momentos, compartilhamos nossos sorrisos e também nossas lágrimas. Sorrisos ao sermos recebidos em um almoço preparado pelos alunos em uma escola japonesa, ao vermos o cuidado com que limpavam as salas, com que se ajudavam mutuamente, recebendo a matéria mais importantes de todas: o amor. Lágrimas ao visitarmos o Memorial da Paz em Okinawa, percorrendo o sombrio corredor da guerra que destruiu o país em que estávamos. E também, uma mistura de sorrisos e lágrimas quando fomos recebidos por membros da família imperial… Finalmente, encontrávamos o que nos faltava para completarmos o nosso Japão.

A visita à sua Alteza Imperial Fumihito, Príncipe Herdeiro do Japão Akishino, e sua Alteza Imperial a Princesa Herdeira do Japão Kiko foi um dos momentos mais emocionantes do programa. Para além dos protocolos, no momento em que nos curvamos diante do casal imperial, curvamo-nos diante do Japão, sob os olhares erguidos de nossos ancestrais. O Sr. Ninomiya, cujo pai vem sendo tradutor da casa imperial há décadas, teve a honra de executar um belo discurso em nome do grupo. Já diante da residência imperial, ao final do encontro, a surpresa de um aperto de mão de despedida gentilmente estendido pela sua alteza imperial o príncipe herdeiro do Japão Akishino. Naquele instante, brotaram em mim as lágrimas que se equipararam a todo um oceano de gratidão, pois que eu representava todos os imigrantes de minha família. Deixei o inglês de lado e agradeci sem pensar, mesmo não sendo da maneira mais adequada: Hontoni Arigatou Gozaimashita.

Quando os portões se abriram, senti-me pleno. No bolso de meu paletó, havia dois doces que me foram servidos durante a recepção imperial. Não ousei degustá-los, pois preferi guardá-los para quem realmente merecia aquela honra que acabara de vivenciar: meus pais. No retorno, o doce em forma de sakura foi entregue à minha mãe, e o que me lembrava uma flor de crisântemo, ao meu pai.

Minha mãe pegou a delicada e pequena iguaria e a partiu em minúsculos pedaços, que compartilhou comigo, com minha irmã, com minhas tias, com todos… E, nesse gesto, compreendi que cada um daqueles pequenos pedaços do Japão eram, enfim, o meu Japão, completo, por inteiro… Compreendi que somos apenas partes de algo muito maior. E cada nação é parte de um mundo maior. E quando todas essas partes se juntam, tornamo-nos completos: humanos.

Agradecimentos

André Kondo – Gaimusho Kenshusei

PS: Meus agradecimentos a todos do Consulado Geral do Japão em São Paulo, em especial ao cônsul Noguchi-san, à cônsul Nakamura-san e à Miki-san; a todos do Ministry of Foreign Affairs (MOFA), em especial ao Takamoto-san, ao Kondo-san, à Omi-san e à Fukuda-san, aos amigos que participaram comigo da bolsa, aos membros da Associação de Ex-Bolsistas Gaimusho Kenshusei, em especial ao Jairo e ao Fernando, a todos os que nos receberam de braços abertos no Japão, em especial à sua Alteza Imperial Fumihito, Príncipe Herdeiro do Japão Akishino, e sua Alteza Imperial a Princesa Herdeira do Japão Kiko, ao Nippak, em especial ao Shiguti-san e à Made in Japan e JBC, em especial à Karin, aos amigos da Nikkei Bungaku, aos meus pais, à minha companheira, aos familiares e aos amigos que me ajudaram com os preparativos de viagem… Uma lista de agradecimentos longa como essa (e incompleta) só demonstra quantas pessoas me apoiaram para que eu descobrisse o meu Japão. A quantas pessoas devemos agradecer em nossas vidas? Como é bom ter esse privilégio! Muito obrigado, a todos!