Tudo vira mangá

Desenho involuntário

As histórias vão das mais fantasiosas até as mais comuns do dia a dia.

A palavra mangá foi criada em 1814 pelo ilustrador Hokusai, que juntou o kanji “man”, cujo significado é “involuntário”, ao ideograma “ga”, que tem o sentido de “desenho”. Esse poder que o mangá tem atualmente no cotidiano dos japoneses se deve a uma longa tradição de amor pelas ilustrações – a própria escrita utiliza ideogramas, chamados de “kanji”, que são desenhos estilizados do que representam. O primeiro registro do qual se tem notícia de uma história em quadrinho foi ainda no século 12.

O monge budista Toba, utilizando blocos esculpidos em madeira para a impressão, publicou em papiro uma sátira ilustrada sobre os religiosos e nobres japoneses, conhecida como Pergaminho Animal.

Mas o formato atual, de quadrinhos contendo ilustrações e textos em balões, chegou ao país somente no final do século 19, com a importação dos Estados Unidos de publicações que veiculavam tiras de quadrinhos. Em pouco tempo foram adaptados ao gosto do público japonês. “A grande diferença entre os dois tipos de quadrinhos é a duração das histórias. Os japoneses usam menos texto e mais desenhos e páginas para descrever uma ação ou pensamento”, analisa Kei Tsukasa, autor do mangá Yabô no Mure (Bando de Ambiciosos).

O pioneiro neste estilo japonês de produzir gibis com mais carga dramática foi Osamu Tezuka, logo após a Segunda Guerra Mundial. Até então, a maioria dos mangás trazia apenas histórias de humor e era desenhada como se o leitor estivesse em um teatro e tudo se desenrolasse no palco. “Não havia como produzir uma descrição psicológica desta forma e decidi usar técnicas cinematográficas. Usei muitos quadrinhos e páginas para conseguir captar fielmente movimentos e expressões faciais que anteriormente teriam sido expostas num simples quadrinho”, contou numa entrevista Tezuka, falecido em 1989.

Este novo formato, criado por Tezuka, foi o responsável pela transformação do mangá no maior sucesso editorial japonês. Logo na primeira história, “A Ilha do Novo Tesouro”, de 1947, ele bateu todos os recordes de vendas: 400 mil cópias. Um número altíssimo, considerando-se que o Japão estava saindo destruído da Segunda Guerra Mundial. A população não tinha muito dinheiro para gastar com diversão. “Pelo baixo custo e como não havia nada para ser consumido em termos culturais, o mangá se tornou uma forte opção de lazer”, conta Minoru Kotoku, produtor da Tezuka Productions, uma das principais criadoras de mangá e desenhos animados do Japão.

No pós-guerra, com poucas editoras no país, os gibis eram feitos artesanalmente e alugados nas kashi honya (loja de aluguel de livros). Com isso, o mesmo livro passava por várias pessoas. Estas lojas de aluguel sobreviveram até o começo da década de 60, quando se transformaram em editoras e passaram a produzir em grande escala. Mesmo assim, o hábito do mangá passar de mão em mão não morreu.

Até hoje, revistas usadas são vendidas por camelôs pela metade do preço. Em lugares onde há grande concentração de pessoas, há lixos exclusivos para revistas e jornais. Com isso, as publicações continuam tão limpas como quando saíram da mão do primeiro comprador. Não é raro ver executivos, de terno e gravata, enfiando a mão no “lixo” à procura de um título que o agrade.

 

 

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  • Realmente… alguns temas são bem cabeludos. Ou não!