Entrevista: Tokyo Ska Paradise Orchestra

Foto: Divulgação

A formação atual de Tokyo Ska Paradise Orchestra

A banda japonesa Tokyo Ska Paradise Orchestra esteve no Brasil para apresentações em São Paulo e no Rio de Janeiro para o lançamento do disco Seleção Brasileira com os sucessos da banda e parcerias inéditas com músicos brasileiros. No show de São Paulo, com a participação do rapper Emicida, cantaram Olha pro Céu, uma versão de Sukuyaki (Ue wo Muite Arukou).

Tokyo Ska Paradise Orchestra (ou SkaPara, para os mais íntimos) atualmente é formada por nove integrantes: Nargo, Masahiko Kitahara, Gamo, Atsushi Yanaka, Tsuyoshi Kawakami, Takashi Kato, Yuichi Oki, Hajime Ohmori, Kin-ichi Motegi. Desde a sua formação, outros oito músicos chegaram a fazer parte do grupo, sempre seguindo no embalo do jazz e do ska vindo de Tokyo mas que já contagia fãs do mundo todo.

Em entrevista exclusiva à Made in Japan, Kin-ichi (bateria) e Gamo (saxofone tenor) contaram o que acharam do Brasil, como foi tocar com o rapper Emicida e curiosidades da banda que já está na estrada há 27 anos.

Show da banda Tokyo Ska Paradise Orchestra em São Paulo

Show da banda Tokyo Ska Paradise Orchestra em São Paulo

Leia a entrevista completa

Neste tempo que vocês estiveram no Brasil, perceberam alguma curiosidade?

Kin: Antes de vir ao Brasil, sempre gostei do país e das músicas. Meu artista favorito de todos os tempos é o Caetano Veloso. Depois que vim pra cá, percebi todas uma mistura de raças, com cada um trazendo a música dos países de origem e acho que essa mistura deve ter enriquecido ainda mais essa cultura musical. Foi aí que finalmente entendi porque sempre gostei da música brasileira.

Gamo: Percebi que o Kin é mais energético quando está no Brasil. Mesmo comparando com quando ele está no Japão. [risos]

Vocês já estiveram em tantos países. O que os motivou a vir para o Brasil?

Kin: Nós acreditamos que por meio da música, podemos transmitir mensagens positivas e que com isso, as pessoas podem viver mais felizes. Nós sentimos que nossa missão é essa de levar a felicidade por todo o mundo. E achamos que poderíamos passar essa mensagem pelo Brasil também. Sem contar que nós já tínhamos vontade de conhecer o país há muito tempo e por isso decidimos fazer esse tour.

No ano passado vocês estiveram no Rio de Janeiro tocando com o Favela Brass. Como foi esse contato?

Gamo: Nós descobrimos que o Favela Brass era um grupo que usa a música para promover uma vida melhor das crianças por meio da música e entramos em contato com eles quando viemos.

No Japão fizemos outros workshops com crianças e quando soubemos que viríamos para o Brasil, pensamos, “porque não colaborar com essas crianças da favela brasileira?”. E eles ficaram muito felizes, nos receberam muito bem no Rio de Janeiro. Dava para ver a felicidade nos olhos das crianças e que elas têm um sentimento puro pela música. Eu realmente desejo que elas cresçam com a música que eles gostam. E nesse ano vamos tocar juntos de novo. Estou muito ansioso.

Vocês já estão na estrada como banda há cerca de 27 anos e continuam transmitindo tanta energia nos palcos. Tem algum segredo para manter toda a empolgação por tantos anos?

Kin: Tocar com os membros da banda é quase como um poder mágico.
Gamo: Quando estamos no palco, nós trocamos energias com o público. Nós vamos para tantos lugares e a tocar música, as pessoas nos dão como que um retorno, com muita energia também. Essa deve ser uma possível explicação para fazer com que continuemos por tantos anos. Eu não imaginava que duraria por tanto tempo. Se eu fosse falar comigo mesmo de 27 anos atrás, eu mesmo não acreditaria que eu ainda estaria na banda porque estávamos sempre discutindo, era um caos. O público também estava sempre brigando, naquela época eram muito agressivos e tínhamos que pedir para que parassem. É quase como um milagre que os integrantes ainda estejam juntos. Alguns entraram para a banda depois, mas muitos ainda são da formação original. É maravilhosos como todos nos juntamos. É como um sonho.

Como vocês se conheceram?
Gamo: Começou em torno do percussionista Asa-Chang que foi juntando conhecidos para formar a banda. Hoje ele já não faz parte do TSPO, mas ainda é muito amigo nosso. Ele começou juntando as pessoas para tocar ou num bar ou num café. A maioria era estudante e era de diferentes bandas.

No começo vocês tocavam em um cenário underground, não profissional. Vocês se lembram de quando perceberam que aquilo estava se tornando mais sério?

Kin-ichi Motegi, na bateria

Kin-ichi Motegi, na bateria

Sim, na época éramos estudantes e alguns de nós estávamos entrando no mercado de trabalho. Nós não podíamos fazer um tour propriamente dito. Podíamos só tocar nos fins de semana. mas em um determinado momento, não conseguíamos mais fazer os dois, tocar e trabalhar. Então cada membro teve que decidir entre a banda e o trabalho e decidimos pela banda e começamos a crescer.

Kin: depois de apenas um ano, já tínhamos 10 mil pessoas no show.

Gamo: Naquela época não tinha internet, a propaganda era feita no boca a boca.
Na década de 80, tinha uma artista famosa chamada Kiroko Koizumi e ela muito influente. Uma vez ela nos viu tocando em um bar e ela gostou e recomendou para outras pessoas. E assim, começamos a ficar mais conhecidos.

Kin: eu entrei para a banda dez anos depois que a banda já existia. Quando eles estavam no começo me lembro que os vi na TV e fiquei muito impressionado. Eu ainda faço parte da banda Fish Man, também bem famosa no Japão.

Sobre o álbum Seleção Brasileira, como o projeto começou?

Capa do CD Seleção Brasileira

Capa do CD Seleção Brasileira

Gamo: Quando viemos pela primeira vez ao Brasil em novembro de 2015, conversamos sobre a possibilidade de fazer uma gravação por aqui. Gravamos três músicas. E uma das nossas característica, é contar com a colaboração de outros músicos, já que somos uma banda instrumental. E tivemos a oportunidade de trabalhar com Emicida em uma das músicas. As demais músicas são outras composições nossas que selecionamos, então é uma coletânea das melhores músicas, para apresentar um pouco do que é o TSPO.

Como foi a experiência de tocar com Emicida?
Kin: Nós traduzimos a música Sukiyaki (Ue wo muite arukou) para o inglês para que o Emicida pudesse escrever a sua própria versão baseada na original, e ele preparou a letra para quando fossemos gravar no estúdio. Eles já tinha tudo escrito. Ficamos impressionados que ele já conhecia algumas coisas do Japão e parece que ele é fã de animes e mangás. Tanto que ele cita na música.

Gamo: Não sabíamos que ele era tão famoso no Brasil, pois no Japão ele não é tão conhecido e ficamos muito contentes que ele pôde fazer essa parceria conosco. É incrível que pudemos gravar com ele no ano passado.

Por que a música Sukiyaki foi escolhida para essa parceria?

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Gamo durante o show em São Paulo

Gamo: Em 2011, teve o Grande Terremoto de Tohoku e, desde então, começamos a fazer os tours pela região. Originalmente a música leva uma mensagem de esperança e a escolhemos para um workshop com crianças de lá. Depois disso, participamos de outras atividades com crianças de outros países e achamos que essa seria a música ideal para compartilhar esperança ao redor do mundo.

Quando Ue Wo Muite Arukou (Olhe para o céu) foi divulgada no exterior, foi traduzida para o inglês e também para o português, no Brasil, como uma música de amor. Mas, acabou se tornando um sentido bem diferente do original. O que o TSPO quis, ao regravá-la, foi apresentar a real versão da música que traz uma mensagem bem positiva.

O Emicida traduziu para sua linguagem e fez baseada na versão original. Por isso, é diferente daquela que já tinha sido mostrada fora do Japão. E a mensagem da música resume um pouco da mensagem que a banda quer passar por meio de suas apresentações, por isso, foi um casamento perfeito.

Tokyo Ska Paradise Orchestra em São Paulo

Tokyo Ska Paradise Orchestra em São Paulo


Estão planejando vir no próximo ano?
Kin: Claro! é uma promessa!

Uma das músicas tem o nome de 5 Days of Tequila. Ela foi composta depois de 5 dias de muita tequila?
Kin: É… talvez. Naquela época nós bebíamos bastante. [risos]
Gamo: Estávamos num tour pela Europa e vivíamos praticamente na estrada. Viajámos em um ônibus de dois andares que tinha camas e era como um hotel e transporte ao mesmo tempo. Todo dia nós fazíamos um show, entrávamos no ônibus, bebíamos, acordávamos para a próxima parada.

Esse era mais ou menos o processo de composição das músicas?
Kin: Sim, algo nesse sentido. 5 Days of Tequila foi escrita quando começamos o tour pela Europa em 2000. Começamos a fazer tours anuais naquele ano. Já tínhamos feito shows internacionais nos anos 90 e, desde aquele ano, começamos a viajar todos os anos.

Uma mensagem final para os seus fãs brasileiros.
Gamo: Queremos voltar todos os anos! O Brasil é um país que demoramos para vir, pois está do outro lado do mundo. Por outro lado, sempre fui curioso para saber como a música era criada por aqui, pois é tão distante do Japão. Queremos voltar mais e mais para aprender mais e mais. Por isso, queremos voltar todos os anos.

Kin: Andando pela cidade, pude perceber uma energia muito grande das pessoas e acho que isso influencia bastante na música brasileira. Queremos nos comunicar e trocar experiências com vocês do Brasil e fazer mais shows e ver muitos sorrisos.

Ouça a música “Olha pro Céu”

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