Entrevista com o diretor japonês Masakazu Sugita

O cineasta japonês Masakazu Sugita, está no Brasil para apresentar seu primeiro longa-metragem “Desejo da Minha Alma” (Hitono Nozomino Yorokobiyo), premiado pelo júri juvenil, no Festival de Berlim de 2014.

Movido pelo desejo de retratar a vida de quem vivencia um desastre natural, Sugita traz influências de suas experiências pessoais ao filme. Momentos marcantes nos dois maiores terremotos que afetaram o Japão nos últimos anos (em 1995, na região de Kobe e em 2011, na região de Tohoku) fizeram com o que o diretor decidisse mostrar ao mundo uma perspectiva diferente sobre as consequências de um terremoto, pela sensibilidade do olhar de uma criança.

Em entrevista à Made in Japan, o diretor contou como foi o processo de produção do filme, da definição do roteiro ao resultado final.

Nos dias 18 e 19 de maio, às 19h15, no Reserva Cultural (São Paulo), o diretor Masakazu Sugita estará presente para apresentar a sessão e conversar com o público. No dia 18, também estará presente o produtor Yasuhiro Miyoshi. Para saber onde os filmes estão em cartaz, acesse o link (clique aqui).

Leia a entrevista completa

Por que você escolheu o tema do desastre natural para retratar em “Desejo da Minha Alma”?

O Japão é um país que enfrenta desastres naturais com frequência. Eu tinha 14 anos e morava em Hyogo, quando aconteceu o Grande Terremoto de Hanshin. Me lembro de ter visto muitas casas destruídas ao meu redor. A minha casa não sofreu muitos danos, mas meu vizinho da frente perdeu tudo. Muitas casas da região estavam completamente destruídas e a minha escola foi usada como abrigo para as vítimas.

O terremoto aconteceu de madrugada e conforme o dia foi nascendo, começamos a perceber as proporções da destruição. Ao caminhar pelo bairro, vi os escombros, mas não tinha noção que havia pessoas ali embaixo precisando de ajuda. Imagino que mais pessoas poderiam ter sido ajudadas naquele momento. Essa experiência fez com que eu me sentisse impotente. Senti que eu poderia ter feito algo mais.

Há quatro anos, eu estava em Tóquio quando aconteceu o terremoto seguido de tsunami, na região de Tohoku. Vi as cenas apenas pela televisão, mas aquele sentimento de 20 anos atrás voltou. Foi quando decidi que queria retratar essa realidade com o meu trabalho.

Ayane Omori e Ruko Oishi são os protagonistas de Desejo da Minha Alma
Ayane Omori e Riku Oishi são os protagonistas de Desejo da Minha Alma

Como foi o processo de construção dos personagens?

A partir da definição do tema, comecei a escolher qual seria a linha da história e então comecei a buscar informações de atores e crianças que se encaixassem no perfil dos personagens. Para a produção desse filme, fiz o máximo para não trazer tantas influências de outros diretores. Tanto que muita coisa acabou sendo criada no momento das gravações. Os atores, em especial, a Haruna, foram quem basicamente direcionaram a linguagem do filme. Deixar informações faltantes é um recurso para que o público comece a pensar no sentimento dos personagens e foi graças à atuação da Ayane que foi possível ter um resultado como este.

Como foi trabalhar com as crianças por trás das câmeras?
Esse foi meu primeiro longa e é um filme de pequena escala, com um orçamento limitado e um tempo de gravações curto (duas semanas). A tudo isso, somamos a dificuldade de trabalhar muitas cenas em que só apareciam crianças, o que aumenta o risco da produção, pois torna produção mais imprevisível. Sei que escolhi um caminho mais complicado, mas encarei como um desafio. O trabalho do produtor também foi muito importante para chegar ao resultado final do filme.

O ator Riku Oishi, que fez o Shota, por exemplo, tem apenas cinco anos e tínhamos que tomar cuidado para não ter ficar repetindo as cenas. Tornar as gravações ainda mais longas seria desgastante. Por isso, todos da equipe, não só eu, tinham que se manter focados para não errar, para manter tudo em ordem.

Você pensou na continuação do filme? Como você criaria a história dali em diante?

Não planejo uma continuação para ela, mas muitas pessoas me perguntam isso. Eu gostaria que os personagens ficassem marcados na memória de quem assistisse ao filme. Eu pensei numa continuação para manter a coerência na história, mas prefiro não dizer, exatamente para permitir que as pessoas criem as próprias conclusões, para incentivar esse exercício da imaginação em cada espectador. Meu objetivo é que a história seja mais livre. É até bom que haja diversidade de interpretações.

Quais são as suas influências no cinema?
Gosto muito do neorrealismo italiano de Roberto Rosselini, Vittorio De Sica, e dos filmes dos irmãos Dardenne, de Sean Penn. Entre os diretores japoneses, gosto de Kazuyoshi Kumakiri, Kenji Mizoguchi e tive como mestres Sakamoto Junji, Tatsushi Omori, com quem tive a oportunidade trabalhar como assistente de direção.

Já tem projetos novos em mente?
Sim, tenho alguns, mas ainda não defini de forma concreta. Um tema que quero trabalhar em um próximo filme é o perdão.

Assista ao trailer do filme “Desejo da Minha Alma”

Direção e Roteiro: Masakazu Sugita
Título original: Hitono Nozomino Yorokobiyo
País: Japão
Ano: 2014
Duração: 85 min
Distribuído pela Supo Mungam Films

Palavras do diretor Masakazu Sugita