O butô como filosofia de vida

Teatro sem fala, dança (em alguns momentos) sem música. O butô é uma mistura de artes, mistura de pensamentos, “é uma filosofia de vida” nas palavras da performer Emilie Sugai. Assistir a uma apresentação de butô é como estar diante de uma obra de arte abstrata, em movimento.

O butô nasceu no Japão, em meados da década de 1950, em uma época marcada pelas consequências do pós-guerra e pela abertura do país às influências estrangeiras. Em contraposição à expansão e intercâmbio das artes, Tatsumi Hijikata iniciou um movimento que criaria o butô: pelo uso do corpo como meio de expressão de sentimentos e sentidos. Não é uma arte fácil de se digerir. É a expressão da liberdade corporal em uma dança aritmada mas que de alguma forma encontra o próprio ritmo.

No Brasil, os principais expoentes da dança foram Takao Kusuno e sua esposa Felicia Ogawa. Kusuno foi responsável pela difusão do butô, incorporando elementos da cultura brasileira às suas performances. Foi ele também quem trouxe Kazuo Ohno, importante dançarino japonês, para conhecer o cenário brasileiro, em 1986.

Definir esta arte/não-arte é de uma complexidade que se contrapõe à simplicidade do palco marcado pela ausência de cenário ou música. Emilie explica à Made in Japan o que está por traz do butô e de sua apresentação Lunaris.

Na sua trajetória, você teve muitas inflluências, em danças clássicas e até artes marciais, mas ao conhecer os artistas Takao Kusuno e Felícia Ogawa, parece ter encontrado uma nova forma de expressão. As influências anteriores ainda reverberam no seu trabalho atual ou esse marco na sua carreira foi mais uma ruptura?

Conhecer o casal de artistas Takao Kusuno e Felicia Ogawa foi um marco para minha trajetória, sobretudo em minha formação e no modo de ver a dança.

Foi um longo trabalho para “apagar” do meu corpo qualquer outra forma de dança , por exemplo a forma do ballet, para depois iniciar uma busca por uma linguagem própria e singular de expressão. Hoje não vejo mais esta necessidade de desconstruir meu corpo. Mas para quem se inicia nesta linguagem precisa sim de um treino diferenciado.

O butô pode ser considerado uma arte marginal?

Hoje o butô está globalizado. Por toda a parte vemos as novas gerações fazendo butô, mas há butôs e butôs… Há gente séria que se aprofunda nele ou pessoas que só são forma esvaziada.

Por que você considera o butô como uma filosofia de vida? Quais valores estão em jogo?

O butô é uma filosofia de vida e trabalho. O butô não se restringe em uma sala de aula. É um questionamento constante do que é a vida.

Em Lunaris, você trabalha o conceito de transitoriedade. A dualidade marcada pela luz e sombra tem a ver também com vida e morte?

A tristeza perante a natureza efêmera e transitória da existência. a beleza que inexiste sem a sombra. Os questionamentos da vida e as transformações do corpo. Tudo está lá, em Lunaris.

A interação com outros objetos em sua apresentação é apenas uma escolha pessoal ou cada um deles tem um significado ou representação intrínseca ao espetáculo?

É uma escolha pessoal a interação com os objetos, que nasce com o processo de criação do espetáculo, a partir do tema e dos sentidos que se quer passar com eles.

Emilie, José Maria Carvalho, o mexicano Diego Piñón e o japonês Kota Yamazakise apresentaram no teatro GEO em São Paulo, o espetáculo Percursos do Butô – legados e perspectivas. Veja a galeria de fotos abaixo.

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Imagens: Rafael Salvador

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