Personagens de games voltam à era Edo


“Se eu pudesse continuar sendo um homem, eu queria ser Samus”

O artista americano Jed Henry sempre foi um admirador da cultura japonesa, mesmo sem saber o que era exatamente. Ele conta que o seu primeiro contato com o Japão foi quando ele ainda era uma criança vidrada em games.

“Na década de 1980, eu costumava assistir a Power Rangers e outros programas como Tundercats.. Eram coisas que já estavam introduzidas na cultura americana, mas na época ninguém dava atenção para a origem deles, é como se estivessem camuflados como parte da cultura americana. Eu comecei a tomar consciência de que eram de origem japonesa mais tarde, quando os canais de ficção científica começaram a passar animações como Appleseed, Akira, da década de 80.

Videogames

Quando eu tinha 6 anos eu gostava do Megamen e eu gostava de reproduzir os desenhos do manual do jgo. Eu lembro que, uma vez, o meu amigo fez um desenho transformando o personagem em um boneco bem forte, como geralmente são os heróis americanos. E eu disse pra ele que não, que o Megaman não tinha essas características porque era um mangá. E mostrei como ele realmente era. Eu me lembro que nós tivemos uma grande discussão sobre o assunto. Foi assim que eu tive o primeiro contato com a cultura japonesa. Na época eu nem fazia ideia de que o jogo vinha do Japão, mas sabia que tinha essas características específicas.

Por que o ukiyo-e?

Eu acho que é legal porque o ukiyo-e é uma das formas mais antigas do mangá. A era das pinturas de Hokusai introduziram a palavra mangá na cultura japonesa. Não é o mangá como o conhecemos hoje, mas a ideia é basicamente a mesma, com os contornos marcantes, a cor chapada.

O ukiyo-e se parece muito com a arte dos quadrinhos. E é uma fine art, porque é estrangeira, é antiga, é necessário ter habilidade. E ao mesmo tempo é uma low art, porque é feita de forma massiva, o que diminui o custo e permite que mais pessoas possam adquirí-la. O que eu acho legal é que essa ideia de arte popular já existia naquela época, uma arte acessível.

E como surgiu a parceria entre você e o David Bull?

Na verdade foi ele que veio até mim (risos). Muito tempo atrás, eu fui para o Havaí, com minha esposa. E lá eu vi umas peças de xilogravura do começo do século XX, de influência shin hanga. Eu gostei tanto que comecei a fazer pesquisas sobre hanga em geral.

David tem muito material disponível na internet sobre a técnica, inclusive e-books acessíveis para iniciantes. Essa referência, especialmente por ser em inglês, me fez chegar a ele. E lendo todas essas coisas eu pensei “eu quero este tipo de vida” e então, mandei um e-mail pra ele dizendo “Eu quero a sua vida, posso ser você?”.

Ele me achou estranho, mas visitou o meu blog, viu que eu tinha alguns trabalhos artísticos e justo naquele momento ele estava buscando parcerias com artistas para atrelar à sua especialidade de gravuras. Nós conversamos bastante, eu mandei uns desenhos para ele avaliar, mas não deu muito certo.

Dois anos depois, eu voltei com a ideia desse projeto, mas eu ainda queria transformar em algo maior. Ele achou que não seria viável, mas eu fui fazendo a divulgação pelo Tumblr, Facebook e, vendo a popularidade do projeto, ele aceitou. Decidi colocar no Kickstarter e aí a coisa andou.

E foi tudo muito rápido.

Sim. Mas na verdade, antes de colocar no Kickstarter, eu também já vinha preparando o terreno. Três meses antes divulguei nas mídias sociais e anunciei que no dia 1 de agosto inciaríamos a campanha. Montamos uma lista de espera de mais ou menos 200 pessoas que já tinham interesse em comprar as obras.

Você trabalha com as gravuras em edições limitadas ou livremente?

O que David realmente quer é tornar a arte acessível e divulgar a técnica. Continuar a reprodução também implica em tornar a arte mais acessível. Nós cobramos 145 dólares por gravura, que é caro, mas é bem mais barato do que se fosse uma edição limitada.

Nós estamos tentando adequar isso ao nosso público consumidor, até porque a maioria dos jovens, que estão começando, ainda não têm lá os melhores salários,etc. Então nós também acabamos mantendo a margem de lucros baixa.

E onde mais você vê o projeto?

Eu tenho umas ideias bem loucas. Neste momento eu estou trabalhando com arte e com personagens de games. Mas, por se tratarem de paródias, eu ainda estou trabalhando em um limite muito sutil entre criação e reprodução. Nos Estados Unidos, as leis são mais liberais, mas no Japão a legislação é mais rigorosa. Talvez no Brasil também não haja tantos problemas com direitos autorais, além do mais nós temos muitos compradores por aqui…

Então, a minha ideia é desenvolver um jogo ou um aplicativo de jogo para Ipads e Iphone. Seria algo como um jogo de lutas e a interação com o aparelho seria bem parecida com a que se tem com o controle do Super Nintendo.

Com o primeiro Kickstarter nós conseguimos juntar dinheiro suficiente para que eu possa investir num próximo projeto nesse ano. E eu queria fazer alguma coisa como retribuição aos compradores, então o jogo talvez seja até gratuito no Appstore. Eu investiria em toda a arte do game e depois, lançaria um novo projeto no Kickstarter para desenvolver a parte de programação.

Nós teremos essas cenas também com traços de arte japonesa. Então seria como uma pintura de Yoshitoshi (ícone do Ukiyo-e), mas em formato animado. Um amigo que mora em Los Angeles, trabalha com o projetos dos Tartarugas Ninjas e ele vai me ajudar com a parte de filmografia, ângulos de cenas, animação, etc. E vamos tentar convidar alguns caras do Avatar: A Lenda de Korra. Pelo menos um, para que possamos dizer “Olha! É do A Lenda de Korra!”

Quais são as suas referências de games?

Eu sou do tipo que gosta dos jogos mais retrôs. Eu parei um pouco de jogar na época em que o Nintendo 64 e o Playstation surgiram porque eu era um grande fã dos jogos da Square e eu fiquei bravo quando os jogos migraram para o Playstation. Com o tempo eu comecei a ficar mais ocupado com as ilustrações. Então, na verdade, eu não jogo tanto desde 1997, mas antes disso era tudo o que eu fazia.

Hoje, eu gosto mais de observar os outros jogando, para observar a arte, a animação, o jogo de câmeras. Eu preciso contar com as pessoas para saber quais são os jogos do momento, onde o mercado está. Muitas pessoas pedem pra eu que eu faça Metal Gear. Porque na minha cabeça, eu ainda estou em Final Fantasy 3, é meio vergonhoso, mas é verdade.

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