Talita Nozomi fala sobre trabalho, joias, viagens e livros

Nos seus livros, você usa esse recurso?
Não. Na ilustração, eu vou muito no feeling. No curso, todo mundo dividia a mesa, mas eu tinha uma só para mim. Na parede, todo mundo dividia, mas eu produzia tanto que eu lotava uma parede rapidamente.

Você sempre teve esse lado artístico?
Sim, desde pequena. Sempre estudei em colégios construtivistas. Lá, ninguém faz moda; todo mundo vai estudar ciências sociais, filosofia, geografia… Muita gente vai para exatas. O estudante faz tanto trabalho social e lê tanto que a última coisa que ele vai querer é trabalhar com moda, joias. Eu estava nesse superimpasse.

Fui conversar com a educadora Ausonia Donato, que é uma orientadora muito atenciosa, ajuda tanto alunos como professores. Falei sobre as minhas dúvidas, daí ela disse “filhinha!” – ela fala assim – “que adianta ser um revolucionário que fica vomitando frases de efeito e achando que está falando com todo mundo, mas, ao seu redor, não consegue fazer nada?”.

Que não é só como político (porque eu achava que seria política ou alguma coisa assim) que você pode mudar as coisas. O importante é você mudar à sua pequena volta. Então é pagar superbem quem está trabalhando com você, tratar bem, fazer as coisas de maneira justa.

Ela falou que a pessoa que ela mais admira na vida é o pai dela, que era alfaiate. Ele tinha isso, ele exercia toda essa ética em qualquer detalhe da vida dele. Daí eu falei: “ah, então ‘bora fazer moda”. [risos]

Daqui a alguns anos, você talvez esteja fazendo outras coisas…
Amanhã!

Como é sempre trabalhar com algo que você gosta?
Eu já entrei em crise. “Eu não foco” – já pensei assim por muito tempo. Todo mundo falando “ah, mais uma coisa? Você não foca. Você tem que focar”. Sofri muito. Até que cheguei à conclusão, com muita terapia, que eu não estou desfocando, porque é tudo na mesma área, só muda a forma. Eu tive uma professora ótima, chamada Patrícia Centurion, que é uma superdesigner de joias. Ela nos ajudou no TCC e deu aula também. Quando eu estava naquela crise, ela disse “não, como você é criativa, você pode fazer o que você quiser, até pneu. Se derem para você um projeto para fazer um pneu, você faz”. Não tem por que não se aventurar.

Em uma notícia da Made in Japan, consta que você parecia mais italiana que japonesa, mas você disse que era bem japonesa. Onde?
Não está vendo? [risos]. Sem ser só no lado negativo… [risos] Acho que isso de ficar “se chicoteando” é algo bem japonês. Sou muito crítica com meu trabalho e com o trabalho dos outros. Prezo muito pela qualidade de tudo. Posso vender a preço de custo uma ilustração, que fica caro mesmo assim, mas uso tudo de primeira. Eu gosto. Se estou fazendo, me jogo. Isso também gera um sofrimento. Gera muita alegria, mas também muito sofrimento.

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