Budô: o segredo da filosofia oriental

"Todas as coisas possuem uma essência divina interior e uma maravilhosa função exterior. A essência de uma árvore manifesta-se em suas flores maravilhosas e na sua folhagem abundante. A essência da árvore não poderia ser percebida se não houvesse flores e folhas. Os seres humanos possuem uma essência divina interior que não pode ser vista, mas que se manifesta com as maravilhosas técnicas do budô". Heiho Jikansho da Escola de Shintô Kajima (Trecho extraído do livro Segredos do Budô, de John Stevens)
“Todas as coisas possuem uma essência divina interior e uma maravilhosa função exterior. A essência de uma árvore manifesta-se em suas flores maravilhosas e na sua folhagem abundante. A essência da árvore não poderia ser percebida se não houvesse flores e folhas. Os seres humanos possuem uma essência divina interior que não pode ser vista, mas que se manifesta com as maravilhosas técnicas do budô”. Heiho Jikansho da Escola de Shintô Kajima (Trecho extraído do livro Segredos do Budô, de John Stevens)

Conta-se na mitologia japonesa que existe um demônio repressor, chamado Shoki, que age de maneira muito dinâmica, pronto para subverter um oponente. Há também um duende das águas, o Kappa, que assume uma posição natural e descontraída. Assim que surge uma oportunidade na defesa do adversário, o Kappa entra em ação. Essa capacidade de assumir as duas posturas, ataque e defesa, de acordo com as circunstâncias pode ser chamada, atualmente, de Budô, filosofia que inspirou todas as artes marciais japonesas atuais, como Aikidô, Judô, Jukendô, Karatê, Kendô, Kyudô, Naguinata, Shorinji-kempo e Sumô. Formada pelos ideogramas “bu”, que significa “guerreiro”, e “do”, que significa “caminho”, essa filosofia tem forte influência do zen-budismo, uma vez que estipula como meta final a iluminação do ser.

Portanto, pode-se dizer que a prática do Budô vai muito além das lutas nos tatami. Ela é a bússola para o caminho espiritual do budoka, praticantes dessa arte. Aos olhos de todas as artes marciais japonesas modernas, o Budô é compreendido como a relação entre a ética e a cultura japonesas. Não desanimar diante das adversidades, mas sim aprender com os desafios, ser disciplinado e respeitar o oponente são alguns dos ensinamentos do Budô.

Os grandes budokas dizem que é com o espírito em harmonia que a pessoa criará uma percepção para agir com energia e coragem a diversas situações que a vida lhe apresentar. “A missão do Budô é fazer com que cada praticante, por meio das boas maneiras, se torne um cidadão melhor para a sociedade”, acredita Fuminori Nakiri, 51, presidente do Budo Gakkai, instituição japonesa que pesquisa essa filosofia.

Pensando assim, não só um praticante de artes marciais, como qualquer pessoa pode utilizar os ensinamentos do Budô para controlar suas emoções e impulsos, tornando-se assim, um verdadeiro guerreiro iluminado.

História
O Budô foi uma derivação do antigo bujutsu, conjunto de disciplinas que eram colocadas em prática nas batalhas durante o período Sengoku-jidai, que durou cerca de 150 anos, entre a metade do século 15 e início do século 17. “No Sengoku-jidai, os samurais lutavam por sobrevivência. As técnicas começaram a ser valorizadas só no Período Edo”, explica Masaru Kanzaki, mestre de Kobudo, a arte dos samurais, a mais antiga arte marcial japonesa.

Ao contrário do conturbado período de guerras do Sengoku-jidai, o período Edo (1603 – 1867), também conhecido como Período Tokugawa, foi marcado pela paz no arquipélago. Com o fim das guerras, as técnicas de lutas que os guerreiros travavam foram ensinadas às pessoas comuns. Criou-se, então, um código oral em que o “espírito da esgrima” (ken-no-kokoro), considerado a base do Bushidô (caminho do samurai), foi transmitido para os praticantes. E como não havia um inimigo, as lutas ganharam características de competição. Para que o caráter competitivo não tomasse conta dos treinamentos, o Budô foi introduzido para ser o caminho espiritual por meio do qual o praticante das lutas de artes marciais atingiria a iluminação. Pode-se então dizer que os objetivos do Budô estão intimamente ligados ao objetivo definitivo da filosofia Zen, que consiste na eliminação do ego, dos preconceitos e ilusões criadas pela mente humana, apegada aos prazeres da Terra.

Durante o Período Edo, surgiram centenas de escolas e modalidades de bujutsu (práticas de combate) com diferentes técnicas, definições e métodos. Essas novas lutas se caracterizaram nas atuais artes marciais japonesas que tem como fonte principal o Budô.

Quem bebeu dessa fonte e se tornou um dos símbolos do ideal budoka foi o samurai Miyamoto Musashi. Depois de muitas lutas vencidas, o guerreiro percebeu que o objetivo das artes marciais ia além da técnica e da aniquilação do adversário. É, então que ele entende a filosofia do Budô.

Assim como a técnica requer prática, para um budoka atingir suas metas, ele precisa praticar incessantemente as premissas do Budô. Aliada à prática, o estudo teórico também é importante para atingir a serenidade diante das situações complicadas da vida.

O que um guerreiro deve seguir

A fim de conservar os princípios básicos do Budô, a Associação Japonesa de Budô decidiu escrever, em 1987, uma Carta do Budô, em que estabelece alguns ‘mandamentos’ para a prática:

1. Por meio do treino mental e físico é possível formar o caráter do budoka, de modo a tornar um indivíduo disciplinado e de bem;

2. Agir com cortesia e respeito durante o treino e desenvolver o equilíbrio entre o corpo, a mente e a técnica. Evitar a tentação de perseguir apenas a técnica de luta corporal;

3. Ter a humildade e autocontrole durante uma competição ou formas definidas de combate (kata);

4. Demonstrar respeito e cortesia no dojô;

5. Os professores devem encorajar a evolução dos seus alunos e não devem dar ênfase somente às competições ou habilidade técnica;

6. As pessoas que promovem o Budô devem ter mente aberta para compreender os valores tradicionais japoneses. Elas devem desenvolver pesquisas e metodologias de ensino para a sua divulgação;

7. Não importa quão rápido seja o movimento, este deve emanar de uma essência calma e silenciosa;

8. A adversidade não faz esmorecer um praticante do budô, ajuda-o a florescer;

O que o guerreiro deve evitar

– insolência
– confiança excessiva
– ganância
– raiva
– medo
– dúvida
– suspeita
– hesitação
– desprezo
– vaidade

Os dez males aos quais um budoka não deve se entregar, segundo um manuscrito da Escola de Kashima Shin (retirado do livro Segredos do Budô, organizado por John Stevens. Editora Cultrix, 11ª edição)
A meca do Budô é o Nippon Budokan, entidade que congrega todas as artes marciais do Japão e fica localizada no atual parque de Kitanomaru, onde se localizava o castelo de Edo. Inaugurado em 1964, a obra foi construída a partir da contribuição do governo e do povo japonês e tinha como objetivo primordial ser um local de competições e de ensino do Budô.

Atualmente, uma das maiores preocupações dos mestres é a conservação dos verdadeiros princípios do Budô. A partir de 2012, a filosofia será introduzida na disciplina de educação física do curso ginasial como matéria obrigatória, mas até lá os principais mestres japoneses querem viajar o mundo todo para divulgar o “caminho espiritual” e não deixar com que as artes marciais resumam-se apenas à prática competitiva.

Em novembro de 2009, uma comitiva com 76 ícones das artes marciais do Japão veio ao Brasil falar mais sobre o Budô. “É muito importante para nós divulgar as artes marciais no Brasil, porque no Japão, os jovens estão mais interessados em praticar beisebol do que aprender lutas japonesas”, considerou Hikaru Matsunaga, presidente da Nippon Budokan.

Entrevista – Fuminori Nakiri

 O mestre Fuminori Nakiri
O mestre Fuminori Nakiri

Na infância, um taco de beisebol lhe chamava mais a atenção do que um hakama (calça larga e frisada) ou um bogu (armadura). Mesmo assim, Fuminori Nakiri resolveu aprender kendo. E não se arrependeu pelo caminho que escolheu. Hoje, dos 51 anos que tem, 38 foram dedicados à arte marcial. O Budô foi a essência tanto da evolução da técnica, quanto da espiritual. Presidente da Budo Gakkai, instituição que foi criada em 1968 a pedido da sociedade japonesa, sensei Nakiri considera que o Budô pode auxiliar mesmo as pessoas que não praticam artes marciais.

Made In Japan – Há quanto tempo você treina kendô e por que se interessou por essa arte marcial?
Fuminori Nakiri – Comecei aos 13 anos, porque quando criança eu era muito fraco, muito covarde. Mas eu queria ter mais força, mais confiança em mim. Eu gostava muito mais de beisebol, do que de kendô, mas foi o kendô que me deu auto-confiança.

MJ – Qual a importância do Budô para os ocidentais?
F.N. – Primeiro seria a diferença entre Budô e esporte. O Budô é uma arte tradicional do Japão e que dá mais importância a constituição espiritual das pessoas. Diferente do esporte que é somente lutar e jogar. O kendô era chamado de luta durante a guerra. No período Edo, o Japão já estava no período de paz, e no mundo dos samurais, eles sempre treinavam em função da guerra, esperando que fosse ocorrer um combate. Em época de paz, como não há essa ansiedade, ficou somente como um treino. Ficou então só como uma prática para o corpo. Por isso é importante lembrar que não é só a parte da técnica, mas também a constituição do espírito.

MJ – Como o Budô lhe ajuda no cotidiano?
F.N. – A prática do Budô, que é o comportamento, o respeito ao outro, isso é muito importante dentro das artes marciais. O Budô é o comportamento, o espírito e a alma. Eu transmito esse conhecimento que tenho para os meus alunos e falo principalmente sobre a educação que desperta no sofrimento. Ele fortalece o próprio espírito e dá confiança às pessoas. Com isso você vai produzindo o comportamento humano e vai educando a sociedade para o futuro.

Esta reportagem foi publicada originalmente na revista Made in Japan 137, de fevereiro de 2009

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