A voz global de Haikaa Yamamoto

Confira o vídeo da canção “Work of Art”, em 19 línguas:

Há dois anos, a artista nikkei Haikaa Yamamoto propôs-se um desafio: descobrir em quantas línguas diferentes conseguiria fazer versões de sua canção “Work of Art”, uma música de celebração da diversidade cultural. Por conta do projeto, entrou em contato com letristas de diferentes partes do mundo. O resultado do trabalho conjunto é uma canção de oito minutos, cantada por Haikaa em 19 idiomas diferentes.

“Queria que cada letra tivesse vida dentro de seu próprio contexto cultural. Mostrei o arquivo de áudio e falei sobre o conceito da canção para cada um dos letristas, mas dei total liberdade para que eles criassem suas próprias poesias”, explica a artista.

Atualmente, Haikaa está trabalhando na 20ª versão da música, em polonês. “O projeto já tem vida própria. A cada versão que fica pronta, mais pessoas conhecem o trabalho e indicam colaboradores. Isso deve continuar por alguns anos”, conta.

Haikaa, 36 anos, nasceu no Brasil, fez colegial no Japão e cursou faculdade de Relações Internacionais nos Estados Unidos. Sua carreira profissional começou no Japão, onde fez parte do grupo pop adolescente “Girls Club” – com contrato da Sony Japan. Atualmente, mora em Los Angeles, onde se apresenta em casas locais.

Haikaa também participou da trilha sonora da novela para internet “Mina & Lisa”, sobre duas adolescentes nipo-descendentes, com a canção “Nananananana”. Made in Japan conversou com a cantora e compositora.

Entrevista – Haikaa Yamamoto

A cantora e compositora Haikaa Yamamoto: nascida no Brasil, criada no Japão e radicada nos EUAA cantora e compositora Haikaa Yamamoto: nascida no Brasil, criada no Japão e radicada nos EUAComo nasceu a ideia de fazer uma canção em diferentes idiomas, com a colaboração de letristas de diversas partes do mundo?
“Work of Art” é uma música que fala sobre auto-aceitação, diversidade e tolerância, valores em que baseei minha vida. Esse projeto, na verdade, começou com a minha versão original da canção, em inglês. Pensei em gravá-la em diferentes línguas justamente porque ela celebra a diversidade cultural.

Para encontrar os letristas, eu me baseei na tese dos seis graus de separação. De acordo com essa teoria, uma pessoa está a, no máximo, seis laços de amizade de separação de qualquer outra pessoa no mundo. Comecei procurando entra as pessoas que eu já conhecia. Elas foram me apresentando a outras pessoas, que me apresentaram a outras. Foi assim que me conectei aos letristas.

Você conseguiu encontrar todos os letristas por meio dos seis graus?
Sim. Levei exatos seis graus para achar o letrista turco, Tunca Zen. Essa foi a maior distância com que me deparei. O mais interessante é perceber o quanto a música aproxima as pessoas. Esse letrista, por exemplo, é um engenheiro e não trabalha com música. Por meio da canção e da sua mensagem, porém, nos aproximamos. Foi muito bacana perceber o quanto pessoas tão distantes estão tão próximas.

Você passou instruções para que os letristas de outros países fizessem as versões?
Eu queria que cada letra tivesse vida dentro de seu próprio contexto cultural. Mostrei o arquivo de áudio e falei sobre o conceito da canção para cada um, mas dei total liberdade para que eles criassem suas próprias poesias.

O letrista israelense vive em um bairro de grande efervescência cultural em Tel Aviv e tem muitos amigos artistas. A impressão deles foi de que a versão em hebraico de “Work of art” soava como uma música top de Israel. Eu quero que as pessoas de cada país tenham essa mesma noção.

Como você aprendeu a pronúncia de cada língua?
Nesse processo, entrou o meu lado bem japonês, de sempre querer acertar (risos). Para chegar às pronúncias corretas, trabalhei tanto com os letristas quanto com técnicos de idiomas. Sempre havia alguém do país que conversava comigo por Skype e me ensinava a pronunciar corretamente. Eu também aprendi ao menos uma música pop de cada país, para absorver formas de interpretar. Com isso, entendi o jeito de expressar emoções de cada lugar.

Se eu fosse pensar no número de horas que levei para realizar o projeto, acho que não faria de novo. Porém, fui muito motivada pelas conexões. Cada letrista que encontrava e cada versão que dava certo proporcionava uma grande alegria. É a concretização de tudo em que acreditei.

Qual é o seu objetivo com este projeto?
Meu maior objetivo é espalhar a mensagem de diversidade e tolerância. Para construir um mundo melhor, não é necessário ser melhor amigo de todo mundo, mas o respeito é muito importante. As pessoas precisam entender que existem diferentes formas de felicidade e que não precisamos ter medo uns dos outros. Quando nos expomos a culturas e formas de pensar diferentes, o que consideramos “normal” se torna muito mais amplo. Todas as pessoas que participaram desse projeto entraram porque acreditam em um mundo diversificado e sem fronteiras.

Essa forma de pensar é reflexo de sua própria experiência, tendo morado no Japão, Brasil e Estados Unidos?
Viver em lugares diferentes me trouxe a perspectiva de tentar entender o que é realmente importante para mim, independentemente do lugar. Os conceitos de certo e errado são muito relativos. Percebo que os protocolos de comportamento são muito menos importantes do que aquilo que as pessoas carregam dentro de si.

Conte um pouco sobre suas mudanças de país.
Minhas mudanças, no início, foram em função da escola. Eu nasci no Brasil e fui ao Japão para fazer o colegial em uma escola tradicional para meninas, onde estudou a imperatriz Michiko. Eu sempre gostei de música e me envolvi com o coral e com a banda do colégio.

Nessa época, tive minha primeira experiência profissional como artista. Entrei para um grupo chamado “Girls Club”. Tínhamos uma estrutura super profissional, com coreógrafo e figurinista. Tudo que falávamos para as revistas era pré-estabelecido pelo empresário. Desde cedo, eu soube que queria ser cantora, mas queria poder expressar o que eu pensava – por isso, meu desenvolvimento artístico sempre caminhou lado a lado com meu desenvolvimento pessoal.

Depois de me formar no colegial, voltei ao Brasil. Logo em seguida, vim aos Estados Unidos para fazer faculdade de Relações Internacionais. Percebi que não queria seguir uma carreira acadêmica, mas que, de certa forma, exerceria diplomacia por meio da música.

Você trabalha de forma independente?
Sim. Seguir um caminho independente permite que eu me mantenha verdadeira. O álbum “Work of Art” (que contém a canção original em inglês) está totalmente disponível no meu site oficial. O disco é todo em inglês e gira em torno de temas como o amor, a felicidade e a coragem, procurando não ser raso. É bem “para cima”.

O que você carrega das culturas brasileira e japonesa na sua musicalidade?
Eu tenho um jeito delicado de me expressar, não grito. Nesse sentido, tenho a influência brasileira da bossa-nova. No Japão, eu estudei o enka e minyo (estilos tradicionais japoneses), que me ensinaram uma técnica de decoração das notas musicais, que deixa a melodia mais rica. Curiosamente, utilizei essa técnica nas versões de “Work of Art” em árabe, turco e armeni.

Texto: Gabriel Nanbu

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