Memória Viva – A história de Aiko Higuchi

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Aiko, o marido Tetsuo, e a filha Edith

Meu nome é Aiko Higuchi, tenho 82 anos. Tinha 6 quando vim para o Brasil. Lembro-me do navio, o Hawai Maru, e da comida, umas batatas meio amareladas. Do Japão mesmo, não me lembro. Cheguei a Santos no dia 14 de novembro de 1927. Quem veio nos buscar no porto foi meu tio, que já estava aqui havia 1 ano. Meu pai apontou para ele de cima do navio, mas eu não o reconheci. Nunca tinha visto um japonês escuro! (risos). Ele estava todo queimado de sol. E nós éramos muito branquinhos. Mas, depois de um tempo trabalhando aqui, todo mundo já estava preto de sol também.

0119_memoria_filha.jpgAiko com a filha Edith quando pequenaFomos para Cravinhos (interior de SP) e entrei para uma escola brasileira. Criança aprende rápido, né? Fiquei lá 4 anos. Mais tarde, fui para uma escola de nihongô e acabei esquecendo como se falava português. Todo mundo trabalhava em cafezal, pegava na enxada. Depois, nos mudamos para Bastos (SP), onde meu pai começou a trabalhar como gerente de cooperativa. Quase todos lá eram japoneses, e todo o comércio era feito em nihongô.

Éramos 8 irmãos. Meu pai deixou meu irmão mais velho estudando no Japão quando viemos para cá. Eu tinha 6 anos, ele 9. Um dia, meu irmão enviou uma carta para papai dizendo que eu, como irmã mais velha em casa – outra irmã já havia se casado – deveria cuidar da família até que ele mesmo viesse para o Brasil. Quando isso acontecesse, eu iria estudar também.

0119_memoria_aiko_marido.jpgAiko e o marido Testuo na década de 60Quando eu tinha 22 anos, de repente chegou a notícia de que ele havia morrido em Nagasaki, em um navio que explodiu no porto. Acabou… ficou tudo escuro na minha frente. Para que viver se não ia mais encontrá-lo? Fiquei uma semana em casa, sem comer, sem fazer nada. Só me levantei porque pensei na minha família, nos meus irmãos mais novos, que eu ainda precisava cuidar. Um ano depois disso, casei-me. (Ela e o marido Tetsuo Higuchi estão juntos até hoje).

Na época da guerra, os japoneses foram proibidos de escutar notícias pelo rádio, mas meu pai tinha um e ouvia escondido. Ele escutou o discurso do imperador Hirohito declarando a derrota do Japão e contou aos seus funcionários.

Nessa época, eu já estava casada. Morava em Pompéia (SP) juntamente com a família do meu marido. Uma noite, sonhei com a minha prima, e ela tinha uma cobra nas costas. Puxei a cobra pelo rabo e, no lugar onde ela havia mordido, começou a sangrar. Sonhar com sangue, dizem, é porque tem algo na família. De manhã, um caminhão passou em casa com um sobrinho, dizendo que meu pai tinha se machucado. Me disseram que ele havia levado um tiro no pé, mas não devia ser grave. Quando cheguei à casa de meus pais, havia um caixão na mesa da sala. Papai havia morrido.

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