Amigos de infância

Aos 82 anos, Hiroshi Nishitani foi o vice-líder do grupo de representantes de imigrantes do Brasil. Nascido na província de Tottori, atualmente mora em São Paulo. Ele imigrou em 1929, quando tinha dez anos. Hiroshi esteve visitando a sua cidade natal onde os amigos se reuniram para realizar uma festa de boas vindas. Foram 45 pessoas no total, incluindo 8 amigos de infância de Hiroshi. Para ele, esses amigos são o maior laço que mantém com o Japão. “Fiquei tão emocionado que cantei antigas cantigas de Tottori. Todos acabaram cantando também”, contou. “Estive visitando a casa onde eu nasci e as árvores e o jardim continuam exatamente iguais”, disse, emocionado.

0209_imigra__o.jpgHiroshi passou pelo Centro de Imigração de Kobe há 72 anos. Na época, o Centro havia sido inaugurado há apenas um ano e o prédio era muito novo e bonito. “Lembro que meu tio veio para se despedir e me trouxe um pão. Na época era muito difícil de conseguir até mesmo um pão. Me lembro muito bem como era gostoso aquele pão que o meu tio me deu.”

Ele se recorda também da despedida daqueles que não puderam partir junto com ele. O exame de vista exigido pelo governo brasileiro era muito rigoroso. As pessoas que não passavam no exame precisavam fazer o tratamento necessário. Caso eles perdessem o navio, teriam de esperar por mais três meses até a partida do próximo. “Quem ficava vinha se despedir com faixas e chorava dizendo que iria no próximo navio. E sempre pediam para que esperássemos por eles no Brasil.”

As fotos preto e branco publicadas ao longo das próximas páginas são um importante registro da imigração japonesa ao Brasil, que completa 93 anos. No dia 18 de junho de 1908, os primeiros 781 imigrantes desembarcavam do navio Kasato Maru, no Porto de Santos. Desde então, outros 400 mil imigrantes partiram do Porto de Kobe, a maior porta de saída do arquipélago. Todos esses imigrantes eram motivados pela campanha do governo nipônico, que propagava que o Brasil era um verdadeiro “paraíso”, onde era possível plantar e colher sem precisar de cuidados rigorosos. “A terra é fértil e, por isso, a colheita é boa, mesmo sem adubação (….)É o lugar ideal para tentar a sorte”, cita o livro Brasil e Japão – Os 100 anos de Tratado de Amizade, de Tsuguio Shindo, traduzido por Julia Sassaki e Olívia Makibara. Motivados pela propaganda, os japoneses não pensavam duas vezes antes de “agarrar a oportunidade”. Só no período entre 1942 e 1952, no governo Getúlio Vargas, houve uma interrupção do movimento imigratório por causa da Segunda Guerra (1939-1945), quando o Brasil proibiu a entrada de estrangeiros que pertencessem aos países do Eixo (Japão, Itália e Alemanha). As fotos, tiradas por Iinuma Masaaki, pertencem justamente ao período pós-guerra, quando o Brasil passou a aceitar novamente os imigrantes.

Masaaki possuía um pequeno estúdio próximo ao Centro de Imigração de Kobe, onde os futuros imigrantes se hos-pedavam antes de embarcar. O contato entre os moradores de Kobe e os Imin-san, como eram carinhosamente chamados os imigrantes, foi muito grande nessa época. Nobukatsu Wada, que morava perto do Centro de Imigração, lembra que muitas famílias que moravam no bairro convidavam os imigrantes vindos de outras regiões para passar o Ano-Novo com eles. Atividades familiares como o mochi-tsuki (ritual da preparação dos bolinhos de arroz) também eram compartilhadas com aqueles que estavam prestes a partir.

Com rostos sempre sérios, as fotos mostram os imigrantes antes da partida, a última lembrança ao lado da família, que ficaria no Japão.

Na maioria das vezes, apenas os homens, que serviam de mão-de-obra, embarcavam nos navios. Afinal de contas, a maioria acreditava que voltaria à terra natal em breve após fazer o pé de meia. Entretanto, o material, doado pelos familiares de Masaaki, já falecido, não identifica a data precisa das fotos nem os nomes dos personagens.

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