Made Entrevista: Takeshi Kitano

Takeshi Kitano é Aramaki em ‘A Vigilante do Amanhã’

 

Esta matéria foi publicada originalmente em nossa revista comemorativa de quatro anos N° 48, de setembro de 2001, e resolvemos resgatá-la para compartilhar as curiosidades dessa entrevista exclusiva da Made in Japan com Takeshi Kitano, cineasta que seria eleito a pessoa mais influente do Japão, segundo pesquisa realizada pelo site Sankei em 2010.

Quem é Takeshi Kitano

Takeshi Kitano nasceu no dia 18 de janeiro de 1947, e foi o último de quatro filhos de uma família de classe média residente no centro de Tokyo. Seu pai era um pintor de paredes habilidoso, e sua mãe uma dona de casa rigorosa com a educação dos filhos.

Após largar os estudos, ele foi se dedicar à comédia, canto e dança com o famoso comediante Senzaburo Fukami. Seus primeiros empregos foram como porteiro, garçom de um café e segurança de uma casa noturna com shows humorísticos e de strip tease. Ali, teve sua primeira chance de atuar quando o comediante adoeceu e foi substituído por ele.

Com um amigo, Kitano formou a dupla “Os Dois Beats” (de onde vem seu nome artístico Beat Takeshi), que se tornou muito popular na TV japonesa.O artista começou sua carreira de ator no cinema em 1980, quando atuou em Makoto-chan. Oito anos e seis filmes depois, ele foi convidado para atuar em Violent Cop (1998), e acabou assumindo a direção do filme quando o editor adoeceu.  No ano seguinte, dirigiu Boiling Point (1990), seguido por Ano Natsu, ichiban shizukana umi (1992) e Sonatine (1993).

Após dirigir Getting Any? (1994), ele sofre um acidente de moto quase fatal, que deixou sua face parcialmente paralizada. Mas se recupera, se dedica à pintura, e filma Kids Return (1996). O filme seguinte, Hana-Bi – Fogos de Artifício (1997), lhe confere o Leão de Ouro em Veneza. Desde então, lançou Verão Feliz (1999) e Brother (2001), e afirmou-se como um autor consagrado, internacionalmente. Seu trabalho mais recente foi interpretando Aramaki em A Vigilante do Amanhã (2017).

No trailer apresentado abaixo temos um pouco da obra Hana-Bi, um dos filmes dirigidos e estrelados por Kitano. Logo em seguida, você confere a entrevista completa.

Entrevista


Made in Japan – O tema principal de Brother é o esforço de um homem por manter o código de honra no submundo do crime, ou você acha que a ética já está corrompida num ambiente assim?

Kitano atuou e dirigiu o filme ‘Brothers’ em

Takeshi Kitano – Yamamoto, o personagem que interpreto, é um típico e conservador yakuza, do tipo que está em vias de extinção. Eu queria um personagem que representasse os valores tradicionais da yakuza, que são constituídos principalmente de duas coisas: senso de auto-sacrifício e determinação para morrer. A yakuza obviamente adotou essas ideias do Bushido, o código dos samurais, da mesma maneira que o Exército Imperial Japonês fez durante a Segunda Guerra Mundial. Embora algumas pessoas vejam beleza nesses princípios, eles possuem certamente aspectos perigosos. Porque quando a organização yakuza e o Exército Imperial assimilaram esse código, eles interpretaram arbitrariamente as ideias originais e as distorceram de acordo com suas próprias conveniências. Eles as usaram como uma ferramenta para controlar as organizações. Mas, nos últimos anos, as organizações yakuza se tornaram muito mais sistematizadas e orientadas para os negócios. Como resultado, a maioria dos yakuzas autênticos não possui mais aquele tipo de mentalidade.

MJ – Não preocupa que o silêncio e expressionismo de seus filmes possam demandar uma grande bagagem cultural da plateia para ser compreendidos?

Kitano – Não, isso não me preocupa. Na maioria de meus filmes eu reduzo os diálogos ao mínimo. Assim, posso obter um máximo de impacto com cada diálogo. Como você sabe, eu sou um comediante, e tenho de lidar com a expressão verbal diariamente. Essa prática me permitiu compreender o poder da linguagem, e perceber suas vantagens e desvantagens. E minha experiência me ensinou ser necessário omitir diálogos desnecessários para causar um impacto maior naquilo que precisa ser dito. Quanto mais você explica, menos intrigante isso se torna para o público. Afinal, já faz mais de cem anos que o cinema foi inventado, e muitas coisas foram expressas de maneiras diferentes e por numerosos cineastas. Com o progresso do cinema, a habilidade imaginativa das audiências precisa ter progredido também. A imaginação é capaz de interpretar o que está implícito no filme assistindo apenas algumas passagens. E eu gostaria de poder confiar na habilidade de minhas audiências para interpretar o que não está completamente explicado ou ilustrado na tela. Eu prefiro deixar espaço para que o público use sua imaginação e leia o que não está dito claramente.

Eu acho que o filme pode ser silencioso em sua natureza essencial. Um filme é essencialmente capaz de mover a emoção das audiências fazendo uso de apenas meia dúzia de tomadas estáticas e sem nenhum diálogo, música ou efeitos sonoros.

MJ – Você acha que a violência é uma fator para entender nossa sociedade?

Kitano – Nestes anos que se seguiram à Segunda Guerra, os japoneses têm tentado assimilar incondicionalmente a cultura e filosofia ocidental e condenado tudo que antecede à Guerra. O resultado é que perdemos nossos valores tradicionais, mesmo aqueles que deveríamos manter. Para piorar ainda mais as coisas, nós interpretamos as ideias e cultura ocidentais de uma maneira totalmente equivocada. Os temas que tenho tratado em meus filmes – vida e morte, violência e por aí afora – tratam de coisas que as pessoas vêm tentando eliminar de suas vidas nesses últimos cinquenta anos.

Desde que a guerra terminou, nós prestamos demasiada atenção na busca da felicidade da vida e negligenciamos a noção da morte. Porém, eu penso que a morte é tão importante quanto a vida. Eu duvido que uma pessoa possa viver sua vida de maneira plena, sem se dar conta de que a morte é algo iminente, que está oculta sob nosso dia a dia, e que pode nos assaltar a qualquer momento.Também a violência tem sido eliminada de nossas vidas diárias, seja nas famílias, nas escolas ou nas comunidades. Quando eu era um garoto, durante os anos 50, podia-se aprender sobre a violência e seus efeitos primeiramente brigando com outros garotos, e sendo repreendido pelos parentes e professores. Porém hoje os garotos crescem convivendo com uma violência repugnante, seja por meio da TV, videogames, ou qualquer coisa assim, sem experimentar uma interação física com a violência, por meio de brigas, broncas ou algo assim. Consequentemente, as pessoas tentam imitar na vida real o que elas veem nas telas, sem nunca ter experimentado a dor que a violência essencialmente traz para suas vítimas.

MJ – Seus filmes são mais moralistas do que violentos?

Kitano – Meus filmes são frequentemente estereotipados e associados à violência. Eu penso que a razão disso é que as cenas de violência que retrato são dolorosas e geralmente acontecem inesperadamente. Quando eu gravo uma cena, tento mostrar a violência como ela é. E a violência é essencialmente dolorosa e inesperada. Além disso, eu posso dizer que eu nunca filmei cenas de violência desnecessárias ou evitáveis. Minha filosofia é que uma pessoa não pode recorrer à violência a menos que esteja decidido a se tornar uma vítima da violência a qualquer momento. Em meus filmes, os personagens que recorrem à violência inevitavelmente terminam se tornando vítimas dessa violência que deflagraram. O que é muito mais problemático que meus filmes é como a violência é tratada nos filmes de ação de Hollywood, ou mostrada na TV. Eles não a abordam de uma maneira realista. As cenas não mostram a dor que a violência essencialmente traz. Isso pode levar o público a tentar imitar essa falsa violência na vida real.

MJ – Você se considera parte de uma tradição cinematográfica japonesa?

Kitano – Não. Em meu ponto de vista, sou um câncer devorando o corpo condenado do cinema japonês. Considero-me originalmente um comediante, e vim a me tornar um cineasta sem ter frequentado uma escola de cinema ou sem ser treinado para me tornar um cineasta da indústria cinematográfica japonesa. Eu não fui criado no cinema japonês. Por mais estranho que possa parecer, é difícil para mim me considerar um diretor profissional, apesar de já ter feito nove filmes. E o meu sucesso só vem provar o quanto o cinema japonês está decadente no momento. Nos últimos anos, especialmente após Hana-Bi vencer o Leão de Ouro no Festival de Veneza, houve um monte de rumores sobre o renascimento do cinema japonês, mas eu duvidei seriamente que isso fosse viável. Se eles realmente querem materializar um renascimento, terão de exterminar um câncer feito eu primeiro.

MJ – Quais são suas principais influências? Você foi influenciado por diretores ocidentais também?

Kitano – Eu nunca fui e ainda não sou o que se pode chamar de um cinéfilo. Ainda hoje eu não assisto a tantos filmes como deveria. Eu fui criado por minha mãe, que era uma pessoa muito rigorosa e excessivamente severa com nossa educação. Tanto que ela nunca me permitia assistir TV, quanto mais filmes. Além do mais, os filmes eram considerados um luxo em nossa vizinhança. Eu raramente os assistia. Meu irmão mais velho uma vez me levou para ver um filme italiano, O Ferroviário (de Pietro Germi). Eu acho que foi a primeira vez que assisti a um filme estrangeiro. Eu me lembro que nós gastamos todo nosso dinheiro com os ingressos, e tivemos de caminhar por horas para voltar para casa. Eu também me lembro que quando estava na escola secundária eu li em algum lugar que estava sendo exibido um filme chamado A Fonte da Donzela (de Ingmar Bergman). Eu pensei que fosse um filme pornô sueco por causa do título e fui assistir, mas era um filme de arte, e não consegui entender nada! Foi apenas muito mais tarde que eu comecei a assistir filmes seriamente. Mas isso aconteceu apenas após eu começar a frequentar os festivais de cinema europeus. Quando eu conversava com os jornalistas ocidentais, eles frequentemente me perguntavam coisas como: “Você foi influenciado por Jean-Luc Godard?” ou “Você já assistiu aos filmes de Jean-Pierre Melville”?, e coisas assim. Para meu constrangimento, eu jamais havia assistido um único filme desses diretores. Eu estava tão embaraçado que fui diretamente para uma locadora de vídeo e aluguei todas as fitas desses dois diretores que encontrei nas estantes!


MJ – Você poderia citar alguns de seus diretores favoritos?

Kitano – Bem, falando sério, não é sempre que os grandes diretores fazem grandes filmes. E apenas porque eu gosto de um filme de determinado diretor, isso não significa necessariamente que eu goste de todo filme dele. Eu posso enumerar um monte de diretores que fizeram filmes que eu gosto. Eu poderia citar os filmes de Jean-Luc Godard até Pierrot Le Fou, mas tenho muita dificuldade de compreender o que ele tenta dizer nos filmes posteriores. Talvez eu seja ignorante demais para entendê-los. Eu fiquei impressionado com Clown, de Federico Fellini, especialmente por causa da maneira como ele usa as cores. Eu gosto de alguns filmes de Kubrick também. E de Akira Kurosawa até Dersu Uzala, especialmente Os Sete Samurais.

MJ – Como é possível conciliar tantas atividades, como cineasta, escritor, ator, comediante, pintor? Elas são complementares?

Kitano – Sim, elas definitivamente são complementares. Para mim é realmente necessário fazer todas essas coisas. Eu sou como um pêndulo oscilando entre Takeshi Kitano, o diretor sério, e o Beat Takeshi, o comediante louco. E quanto maior o espaço entre os dois, maior a amplitude alcançada pelo pêndulo. Se você perguntasse pra mim “o que mais gosta de fazer?”, eu responderia “cinema”. Porque, para mim, o cinema é o brinquedo mais extasiante que já tive. Eu penso que filmar é uma arte composta, plural, capaz de assimilar todas as formas de arte ou entretenimento, todos os recursos do teatro, da música, pintura ou comédia. De modo que é a coisa mais gratificante e divertida que faço no momento. Por outro lado, eu ainda considero o trabalho na TV a minha ocupação principal. Quando vou para os estúdios de TV, sinto-me como uma criança indo para um parque de diversões. Eu faço isso todos os dias. Embora haja muita excitação envolvida, de vez em quando eu consigo ver coisas interessantes e encontrar pessoas interessantes. No momento, eu me apresento sete dias por semana, alternando de um programa sério de ciência, algo como o equivalente japonês do Discovery Channel, a uma comédia pastelão em que corro seminu ao redor do estúdio. E por meio de todos esses diferentes programas de TV eu posso absorver várias coisas para refletir em meus filmes.

MJ – Você acha que há alguma incompatibilidade entre seu trabalho como comediante e a imagem que você conquistou internacionalmente com seus filmes densos?

Kitano – Sim, eu acho que eles são incongruentes, mas penso que isso é bom para mim. Minha política como humorista ou como artista é que devo sempre tentar impedir o público de me rotular. Do contrário, o público poderá perder o interesse por mim. Suponha que você esteja caminhando em um parque, e ao passar por um lago avista algo brilhando dentro d’água. Você poderá ficar bastante curioso enquanto ainda estiver tentando descobrir o que pode causar o brilho, e tremer de satisfação enquanto estiver retirando o objeto do lago. Mas no momento em que você descobrir que se trata apenas de um espelho quebrado, ficará desapontado e desejará nunca ter se interessado pelo objeto. De modo que é necessário manter algo não identificável brilhando sob a água para manter o público interessado em você.

MJ – Quais são os planos para o futuro? O mercado internacional é seu objetivo principal agora?

Kitano – Eu tive de começar a trabalhar na preparação de meu próximo filme, que será filmado inteiramente no Japão. Eu já finalizei o roteiro, e o enredo terá uma história de amor trágica. A ação se passa nos tempos modernos, mas é também uma homenagem a Monzaemon Chikamatsu, um dramaturgo legendário do Período Edo, dos séculos 17 e 18, que escreveu as peças de Shinju-mono, uma história de amor com duplo suicídio para Bunraku Puppet e Kabuki. Quando visitei os EUA no começo do ano, quase todos os entrevistadores que encontrei me perguntaram se eu poderia fazer um filme para o mercado norte-americano da mesma maneira como alguns cineastas asiáticos como John Woo e Ang Lee. Mas eu não consigo me imaginar fazendo filmes para os estúdios norte-americanos, que demandam uma grande produção, e são destinados para uma grande audiência. Isso não é algo que eu esteja muito interessado em fazer, ou que eu poderia fazer bem. Os diretores que citei são muito melhores nessa área que eu. Por outro lado, há certos filmes que eu posso fazer melhor que eles. Eu não acho que um dia eu serei aceito pelo mainstream. Eu sempre serei uma alternativa para o showbusiness. Mas, se eu tiver um roteiro que precise ser filmado em outro continente e tiver uma oportunidade de trabalhar com a mesma liberdade de criação que tive com Brother, eu poderei fazê-lo.

 

Entrevista e matéria por: Rodrigo Brasil

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