Entrevista com Lucas Furukawa

O mangaká brasileiro Kamiya Yuu em sua mesa de trabalho

O mangaká brasileiro Kamiya Yuu em sua mesa de trabalho

Entrevista – Lucas Thiago Furukawa (Kamiya Yuu)

*Por Cesar Hirasaki

Sobre a vida no Japão

    Made in Japan – Lembra da infância no Brasil? Como era?
    Lucas – Não me lembro de muita coisa, a não ser das picadas dos mosquitos! Na época, minha família morava em Minas Gerais, num sítio em Uberaba. Acho que a vida no interior marcou minha infância e minhas lembranças do Brasil.

    MJ – Como foi a adaptação nos primeiros anos de Japão?
    Lucas – Meus pais vieram como dekassegui e me colocaram logo em uma escola japonesa. Ia pro shogakko (primário) carregando um dicionário bilíngüe, porque na época só sabia falar “arigato”. Não entendia nada do que o professor falava.

    MJ – Desde quando se interessou pelo mangá e por quê?
    Lucas – O interesse pelo mangá surgiu na medida em que eu ia aprendendo o japonês. Jogava (e ainda jogo) bastante videogame, o que me incentivava ainda mais a entender o idioma. Logo, fiquei viciado nesse universo de animes, mangás e videogames!

    MJ – Já fez aula de desenho?
    Lucas – Nunca.

    MJ – Mantém algum tipo de ligação com o Brasil? Já voltou para lá desde que chegou ao Japão?
    Lucas – Voltei três vezes desde que cheguei aqui, mas sempre para visitar os parentes. Não mantenho nenhum tipo de ligação ao Brasil, a não ser com familiares via internet. Em época de Copa do Mundo torço para a seleção brasileira, mas acho que é só isso mesmo (risos).

Sobre o autor

    MJ – Por que o codinome Kamiya Yuu?
    Lucas – Muitos autores preferem ter um pseudônimo em vez de colocar o nome verdadeiro. Não tenho um motivo especial por ter escolhido esse nome. Sempre achei a sonoridade de “Kamiya” bem legal. Aí foi só colocar o Yuu e pronto!

    MJ – Como surgiu a oportunidade de ser um profissional?
    Lucas – Pouco mais de três anos atrás, comecei a participar do Comic Market, em Tokyo, um evento onde milhares de mangakás amadores se reúnem para vender suas obras. É a maior convenção de quadrinhos do mundo. Na época, eu ainda criava histórias com personagens de mangá já bastante conhecidos. Um “olheiro” de uma editora especializada gostou do meu traço e me propôs a fazer uns bicos para o site da empresa. Depois de seis meses fazendo ilustrações, a editora pediu para que eu inventasse uma história própria para ser publicada na revista mensal.

    MJ – Qual a experiência que mais lhe marcou como mangaká?
    Lucas – No começo de Earise, meu primeiro mangá, foi um inferno. Estava empolgado por estreiar como mangaká profissional, mas a pressão era muito grande. Varei muitas noites desenhando os capítulos diversas vezes, até sair num nível razoável. Era trabalho que não acabava mais. Depois você acaba se acostumando com o ritmo e ficando mais experiente.

    MJ – Como é sua relação com os fãs leitores?
    Lucas – Normal, eu acho. É sempre ótimo receber elogios, mas nem sempre as críticas são construtivas. Aprendi a lidar com isso ao longo do tempo, mas às vezes não dá para simplesmente ignorar. Por exemplo, quando você está super ocupado e chega um email desse tipo, acaba com seu humor e atrapalha o andamento do trabalho.

Sobre a obra

    MJ – Do que se trata a atual obra Greed Packet Unlimited?
    Lucas – O enredo se passa em um mundo onde você pode comprar magias pelo celular, que são extremamente caros. Por conta disso, a heroína, Nokia (todos os personagens têm nomes relacionados a companhias de celular), constrói uma irmã por meio de magias, além de enfrentar seres estranhos e outros vilões.

    MJ – Como surgiu a ideia do enredo?
    Lucas – Tenho ideias malucas na cabeça a todo momento (risos). Criar histórias nunca foi um problema para mim.

Sobre o trabalho

    MJ – Como você descreve o trabalho de um mangaká profissional?
    Lucas – Muito trabalho! Não tenho folga e preciso cumprir os prazos, por isso, muitas vezes fico trancado por semanas em casa. É uma rotina muito cansativa, por isso é preciso gostar muito do que faz.

    MJ – Como você avalia o mercado de mangá atual?
    Lucas – Hoje em dia, existem muitas revistas semanais e mensais que publicam mangás no Japão. Por isso, muitos “olheiros” de diversas editoras estão atrás de mangakás amadores de talento em eventos como o Comic Market. A cada ano aumenta o número de autores e obras, o que faz com que a qualidade dos produtos fique cada vez melhor.

    MJ – E em relação ao salário, ganha-se bem?
    Lucas – Depende de cada autor. Tem muito mangaká com obras que não vendem muito, ou não conseguem arranjar um “bico”. Alguns realmente precisam se preocupar com o dinheiro. Outros se tornam milionários com apenas um título. No meu caso, digamos que, com Greed Packet Unlimited e outros trabalhos de ilustração, consigo pagar meus assistentes, manter os gastos da casa e comprar eletrônicos, tanto para hobby, como videogames, ou para o trabalho, como computadores.

    MJ – Ser brasileiro já chegou a ser algum tipo de barreira na sua profissão?
    Lucas – Até agora, não. Atualmente, existem muitos mangakás asiáticos, principalmente coreanos. Nunca ouvi alguém reclamar sobre preconceito. Muito pelo contrário, acho que as editoras de mangá estão absorvendo bastante talentos estrangeiros.

    MJ – Que tipo de conselho daria para pessoas que queiram ser mangaká profissional?
    Lucas – Acho que não sou a pessoa certa para dar conselhos, até porque tenho muito o que aprender ainda. Posso dizer apenas que é preciso se dedicar muito, se entregar de corpo e alma para o trabalho.

Esta reportagem foi publicada originalmente na revista Made in Japan 137, de fevereiro de 2009

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