Palestra de Nobuhiro Watsuki em São Paulo

Fotos: Nikko Fotografia

Sala cheia no Centro Cultural São Paulo para a palestra de Nobuhiro Watsuki e Kaworu Kurosaki

Na segunda quinzena de julho, o autor de mangás (quadrinhos japoneses) Nobuhiro Watsuki e sua esposa Kaworu Kurosaki estiveram no Brasil para uma série de palestras no Rio de Janeiro, Santos e São Paulo a convite da Fundação Japão em São Paulo, em parceria com a Editora JBC e a loja Comix Book Shop.

No dia 17 de julho, cerca de 450 pessoas estiveram no Centro Cultural São Paulo para a palestra seguida de bate-papo com os fãs que teve duas horas de duração com direito a sessão de perguntas e respostas e sorteio de brindes trazidos pelos autores. Também participaram do bate-papo a professora Sonia M. Bibe Luyten, doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações da Universidade de São Paulo, com tese sobre mangá, e Francisco Sato, presidente da Associação Brasileira de Desenhistas de Mangá e Ilustrações (ABRADEMI).

Watsuki é autor do mangá Samurai X (Rurouni Kenshin, publicado no Brasil pela Editora JBC) e também dos títulos Buso Renkin (também pela Editora JBC) e Embalming. Além de ser conhecido mundialmente pelas próprias obras, o mangaká, como são chamados os autores de mangás no Japão, também é conhecido por ter sido mestre de grandes autores Eiichiro Oda (One Piece) e Hiroyuki Takei (Shaman King).

Ele começou sua carreira em 1987 quando ganhou o Prêmio Osamu Tezuka com seu trabalho Teacher Bon e em 1994 lançou seu principal título: Rurouni Kenshin, pela revista semanal Shonen Jump. No evento, o autor adiantou que já está em fase inicial de um novo projeto e que está previsto para ser lançado na próxima primavera, no Japão (meados de abril de 2016).

Kurosaki, que já havia morado no Brasil durante a infância e que fez uma série de palestras no Brasil em 2014, foi roteirista do anime “Super Campeões” e também foi responsável pelas adaptações de roteiro de Samurai X para a animação.

Durante a palestra do dia 17 de julho e a coletiva de imprensa concedida momentos antes da palestra aberta ao público, Kurosaki e Watsuki falaram sobre como é a vida de um mangaká, deram dicas para quem está começando na carreira, como foi a produção de Samurai X e quais foram as impressões sobre o Brasil.

Fotos: Nikko Fotografia

Watsuki mostra sua coleção de ‘Getter Robots’

O sucesso de Samurai X (Rurouni Kenshin)

Quando escrevi o Kenshin, não pensei que seria um sucesso mundial. Criei uma história de acordo com o que estava à minha volta. Acredito que o que escrevo tem que antes ser bem avaliado no meu país, para então, naturalmente, ser publicado em outros países.

Quando faço uma obra, o importante é que eu goste dessa obra e me divirta com ela. Tento compartilhar isso com meus leitores.

Como é a vida de um mangaká?

O mangaká vive de e para o mangá. Mas, mais que simplesmente desenhar mangá, o autor tem que fazer algo que possa divertir os leitores. Creio que vivi esses vinte anos de carreira graças aos meus leitores que dão força para que eu continue desenhando.

O primeiro passo para se tornar um mangaká profissional é saber que não se escreve somente o que gosta, porque também temos que pensar no leitor, no que ele quer e o que gosta.

Quem quem ser mangaká tem que saber que nós não dormimos muito. Por isso, é importante se manter saudável para ter energia para trabalhar. Desde que me tornei mangaká, fiquei meio ‘gordinho’ (sic) e acho que cheguei no limite. Depois disso, resolvi começar a frequentar academia e cuidar melhor da minha alimentação.

Nesse momento da entrevista, Kaworu disse que na etapa de finalização de Rurouni Kenshin ela ficou um tempo sem ver o marido e que quando o viu, se assustou “com aquela pessoa tão crescida para os lados”, brincou a roteirista. “Acho que o Watsuki sensei que era magrinho e esbelto foi sacrificado aos Deuses em troca do grande sucesso do Kenshin”.

Quero lançar um mangá no Japão

Para quem pensa em entrar para o mercado de mangás no Japão, vejo duas possibilidades. Uma seria ir ao Japão, dedicar-se aos estudos, ao trabalho em uma editora japonesa e entrar para o mercado com as mesmas condições que um japonês. Outra alternativa seria ganhar destaque no seu próprio país e então visar o reconhecimento internacional. No Japão, muitas pessoas almejam ser um mangaká e a competição é muito grande, por isso, acredito que a segunda opção seja a mais viável.

Apesar de saber que começar no mercado seja um tanto difícil, tenho certeza de que um artista talentoso tem a chance de aparecer e ganhar destaque. Aquele que tem o dom de ser mangaká, que seja um Osamu Tezuka (considerado “pai do mangá moderno”) do Brasil, com certeza chamará a atenção dos japoneses. Fico na expectativa de que surja uma pessoa assim no Brasil.

Dicas do mestre

O principal material que o autor brasileiro tem é o Brasil. Busquem a essência do Brasil de uma forma que atraia o interesse do leitor.

Um exemplo de história que poderia sair do Brasil é o tema da imigração japonesa e o drama das dificuldades que os imigrantes tiveram quando chegaram ao Brasil.

Outro tema é o retrato do dia a dia do brasileiro, algo alegre. Além disso, seria interessante ter um mangá gourmet sobre alguém que gosta do café mais delicioso do mundo: o café brasileiro.

Se for interessante e divertido, no mundo do mangá, tudo é válido.

O sucesso dos aprendizes de Watsuki

É muito gratificante ver alguém a quem eu ajudei a entrar no mercado fazendo tanto sucesso. Estávamos preocupados com a diminuição da população jovem no Japão porque isso poderia compactar o mercado de mangás. Mas, com o sucesso de mangás como o One Piece, ficamos muito felizes que o mundo do mangá voltou a ter essa energia e espero que mais obras consigam tamanho sucesso.

Não me lembro de ter ensinado nada pontualmente para eles, mas acho que o principal ponto que quis compartilhar foi a paixão pela profissão e o quão divertido é ser um mangaká.

Influências do autor

Atualmente tenho lido o mangá Hyouge Mono (de Yoshihiro Yamada) que se passa no Período Sengoku (1467-1603). O personagem principal é um artista e é uma obra bastante divertida.

De animes, tenho assistido Steins; Gate (cuja adaptação para mangá foi publicada no Brasil pela Editora JBC), que originalmente foi criado como game e é uma obra que, ao assistir, esqueço que sou da área e simplesmente me divirto.

Imagino que esses dois, de alguma forma, vão aparecer nas minhas próximas obras.

Curiosidades do Brasil

Os brasileiros são muito abertos, receptivos, sem muitas regras (num bom sentido). Essa alegria é contagiante e acho que isso pode acabar se refletindo em próximos personagens. Nas minhas obras, em geral, os personagens são mais obscuros e talvez eu traga essa alegria brasileira a novos personagens.

Outra coisa que achei curiosa na viagem é que quando passeamos pelo o Jardim Botânico do Rio de Janeiro vimos uma iguana bem de perto e é uma coisa que, no Japão, eu veria apenas no zoológico.

Saiba como foi a palestra de Watsuki e Kurosaki no 21º Fest Comix, nesta cobertura do site Henshin!

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