Por que existe o alfabeto katakana?

Desde o século 20, o katakana tem sido utilizado principalmente para escrever onomatopeias, nomes científicos de plantas, animais e minerais, palavras e nomes estrangeiros, além de enfatizar certas expressões em textos. Porém, devido à globalização, cada vez mais palavras e expressões estrangeiras estão sendo incorporadas ao idioma nipônico.

A rede Mc Donalds é chamada de Maku Donarudo no Japão
A rede Mc Donalds é chamada de Maku Donarudo no Japão

E toda vez que esses termos são colocados no papel, o katakana entra em ação, tornando-se cada vez mais presente no dia a dia dos japoneses. Só na 5ª edição do Dicionário Kôjien, em que constam 230 mil palavras, 10% são escritas dessa forma. Dentre as 10 mil novas palavras incluídas no vocábulo japonês, um terço é escrita nesse alfabeto.

Fazem parte dessa nova leva neologismos, novos termos estrangeiros (gairaigo) e abreviações – resultado de uma “modernização” do idioma falado e consequentemente escrito. Alguns, nem sequer possuem significados equivalentes em japonês: “Palavras como ‘privacy’ (privacidade) e ‘identity’ (identidade) não existem no idioma japonês. Entretanto, podemos dizer que é uma trapaça se substituirmos uma palavra que existe em japonês para uma palavra em katakana”, critica o ensaísta linguístico japonês, Hisashi Inoue.

A rápida transformação da língua acaba causando um abismo na comunicação entre duas ou mais gerações distintas. Devido à incorporação em massa de estrangeirismos e abreviações, os jovens japoneses têm utilizado um linguajar moderno, muitas vezes incompreensíveis para os avós.

O mesmo acontece no Brasil. “Os isseis que vieram ao Brasil no começo do século 20 falam um japonês relativamente arcaico. Se eles retornassem à terra natal hoje, estranhariam a maneira como o idioma se modificou”, analisa Koji Sasaki, antropólogo japonês da Universidade de Tokyo.

Ao ligar a TV no Japão, por exemplo, novelas, programas de auditório e seriados usam e abusam dessas “gírias”. Nas ruas, os mais novos trocam diálogos que seriam, em parte, incompreensíveis aos que estão desacostumados com esse tipo de linguajar. Por isso, o katakana geralmente é associado a uma escrita mais moderna e jovial – bastante frequente em elementos da cultura pop.

O katakana é o alfabeto usado para representar palavras estrangeiras, onomatopeias, entre outros
O katakana é o alfabeto usado para representar palavras estrangeiras, onomatopeias, entre outros

Em mangás, por exemplo, o uso do katakana é bem frequente. Além de representar a maior parte das onomatopeias, o alfabeto também é usado para indicar a fala de algum personagem estrangeiro ou um robô. Trata-se de um recurso utilizado pelos autores para reforçar a ideia da fala diferenciada dos seus personagens.

Embora o katakana seja utilizado principalmente para transcrever palavras de origem não chinesa, existem alguns casos peculiares adotados pela língua japonesa em que o uso do alfabeto acontece sem que haja um motivo específico.

As expressões decorrentes de abreviações acabam virando katakana, mesmo que a palavra original tenha seu próprio kanji. É o caso do termo マジ (maji), muito falado por jovens para expressar uma reação do tipo “fala sério?”, “verdade?”. A palavra é resultado da abreviação de 真面目 (majime), que significa “seriedade”, “de aspecto ou caráter sério”.

Kimura Takuya é apelidado de Kimutaku
Kimura Takuya é apelidade de Kimutaku

Outro exemplo do gênero é a abreviação de nomes de celebridades, como o do ator e cantor, Kimura Takuya. O popstar, membro da boyband SMAP, recebeu de seus fãs e da mídia o carinhoso apelido de Kimutaku キムタク.

Ainda no universo showbiz, é comum entre os astros nomes artísticos escritos em katakana por motivos estéticos. E a moda parece ter chegado às maternidades. Desde a década de 1990, as mães têm batizado o primeiro nome de seus filhos em katakana, principalmente no caso das meninas, como Hikaru (ヒカル) e Erika (エリカ).

Além de transcrições de palavras importadas, o katakana, por ser um alfabeto com funções versáteis, é cada vez mais usado na escrita.

Matéria publicada na edição #147 da Made in Japan

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