Bairro da Liberdade passa por mudanças

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Quem passa pelo bairro da Liberdade, no centro da cidade de São Paulo, tem a impressão de que chegou ao Japão. Anda-se na rua Galvão Bueno, a principal da região, entre pilastras vermelhas com as inconfundíveis lanternas japonesas e, caminhando um pouco mais, descobre-se um pequeno jardim oriental. Os letreiros das lojas que se multiplicam em cada quarteirão misturam o idioma japonês ao português da mesma forma como os senhores que conversam nas calçadas.

Essa sensação de se estar em outro país aumenta no fim de semana, quando se pode perambular pela feira de artesanato que acontece aos domingos. Mesmo dividindo o espaço com barracas de acarajé, ainda se vê muito da cultura japonesa em leques, quimonos e utensílios que são vendidos na região, sem falar nas festas tradicionais que são realizadas durante o ano. “Estive no Brasil outras vezes, mas nunca pensei que houvesse um bairro japonês como esse”, admirava-se o alemão Dieter Kauderer que, com a mulher e os três filhos, conhecia o “Japão de São Paulo” pela primeira vez.

Apesar da Liberdade estar ligada aos japoneses, aos poucos eles têm se mudado para outras regiões da cidade. Mas ainda permanece como ponto turístico quando se fala no único local, em pleno Brasil, que tenta reproduzir o Japão. “Hoje, os comerciantes não são somente japoneses”, comenta Hirofumi Ikesaki, presidente da Associação Cultural e Assistencial da Liberdade. “Agora, coreanos e chineses estão se fixando no bairro, como fizeram os primeiros imigrantes cinqüenta anos atrás.”

Muito antes de todos eles, a Liberdade era dos italianos, que ocupavam as inúmeras pensões do bairro. Sinal de que os tempos mudavam, esses pequenos sobrados surgiram onde, anteriormente, plantava-se café. Só depois, seguindo a mesma trilha, vieram os japoneses.

De um lugar barato para se morar, a Liberdade se tornou perigosa para os japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. Com a adesão do Japão no conflito a favor das tropas de Hitler, o governo brasileiro proibiu o uso da língua japonesa e qualquer reunião que acontecia a portas fechadas era reprimida pela polícia, resultando em incontáveis prisões. Não foi somente esse o problema da época. Quando acabou a guerra, o grupo de extrema direita Shindo Renmei passou a perseguir os japoneses que aceitavam a derrota do Japão, marcando a tinta vermelha todas as casas daqueles que se pensava estar traindo a nação.

A transformação da Liberdade em bairro tipicamente japonês só ocorreu a partir de 1969, uma idéia que foi proposta pelo jornalista Randolfo Marques Lobato, presidente de uma comissão de moradores que reunia, além dos japoneses, coreanos, chineses e vietnamitas. A mudança apareceria quatro anos depois, com a inauguração da linha norte-sul do metrô paulistano. As fachadas dos prédios foram remodeladas e os estabelecimentos trocaram as antigas placas por letreiros bilíngües. A rua Galvão Bueno recebeu um imenso portal no Viaduto Cidade de Osaka e a Liberdade ganhou a aparência de uma região que tem mais cara de Japão do que muitos bairros japoneses dos dias atuais.

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